1/31/2012

Um momento Beckett

«E então?», pergunta alguém. E a outra pessoa responde: «E então, nada». Parece uma dessas trocas de palavras sem sentido, em que os portugueses são exímios. O «então» da pergunta não supõe forçosamente que tenha acontecido alguma coisa a que se teria seguido uma qualquer reacção; pode ser apenas um vago «como vai a vida?». Idem a resposta: ou é igualmente vaga ou é nula; se o «então» se refere a um nexo causal entre um facto e outro que se lhe seguiu, então não há nada a dizer a isso, não houve nenhum nexo, nenhuma acção. «Então, nada». Ou pode ser uma resposta ainda mais triste, mais conformista: de facto aconteceu alguma coisa mas a conclusão disso é nenhuma, a reacção é nenhuma, aconteceu alguma coisa mas não há «então» possível. E o «nada», em vez de uma simples negação, é a afirmação de uma negação. Como se em vez de uma vírgula houvesse dois pontos: «então: nada».

Rain and dirt and weeds and leaves


O direito ao esquecimento

Tem andado em discussão nas mais altas instâncias o «direito ao esquecimento», também chamado «direito a ser esquecido». Trata-se de saber que destino dar a toda a informação que vamos deixando no mundo digital, e que com o passar do tempo se torna caduca ou inconveniente. Esses registos devem ser preservados em nome da memória ou apagados por respeito à privacidade? Juridicamente, tenho dúvidas. Mas pessoalmente, não. Esta noite tive a experiência penosa de revisitar textos íntimos antigos, mensagens antigas, conversas antigas, apaguei algumas, outras deixei ficar, mas há casos em que não controlo o meu «direito ao esquecimento». Quanto ao «direito a ser esquecido», esse parece-me garantido.

1/30/2012

Let's call it a day

Rain on lens
Boom in frame
All is ruin
Let's call it a day

[«Rain on lens», Smog]

Chuva













Talvez não houvesse de facto chuva mas apenas chuva na lente.

Objectos

Objectos que se tornam um segredo, depois um ícone e depois uma lápide.

Prova documental

Preciso de prova documental, sempre precisei, talvez por optimismo, talvez por masoquismo. E quem procura provas documentais está condenado a encontrá-las.

Those are pearls that were

Em vez de «essas são pérolas que eram os seus olhos» fica «estas eram pérolas que são os seus olhos».

Ideias velhas



I caught the darkness, it was drinking from your cup 
I caught the darkness drinking from your cup 
I said is this contagious? 
You said just drink it up.

1/28/2012

Uma luz indecisa

Ela estacionava em piscas, eu ia logo, e ainda agora aquilo de que mais me lembro é um sorriso tão mutável como a refracção da luz: ela mostrava-se divertida, ansiosa, curiosa, feliz, trocista, inquieta, confiante, incrédula, expectante, entusiasmada, aliviada, descrente, ausente, pensei saber o que era o quê, afinal não sei, e agora é de outro aquela luz indecisa.

O senhor que se segue

É curioso como o senhor que se segue me parece sempre uma boa escolha.

Drip drip drip drip drip drip drip

1/27/2012

Poderes constituintes

Confesso que a maioria das coisas boas ou más que me dizem e fazem me afecta pouquíssimo. Excepto quando vêm de uma pessoa de quem gosto mesmo, caso em que quase tudo se torna vinculativo, definitivo, patológico. Gostar é constituir um poder. Um poder que é constituinte.

1/25/2012

Theo Angelopoulos 1935-2012



















O Apicultor passou há uns anos na televisão e nunca mais me esqueci. Revi-o há dias, e confirmei porque me impressionou tanto: é um filme onde tudo já está decidido na primeira cena, e onde o que se segue é uma espécie de longo epílogo. Um filme em forma de epílogo, uma ideia brilhante e tristíssima. 

O Melissokomos (1986) é o sonoro título deste filme do grego Theo Angelopoulos. Na versão italiana que vi agora, mais curta e bastante escura, senti falta da melodiosa impenetrabilidade da língua helénica, mas notei curiosas afinidades meridionais. O melissokomos / O Apicultor tem dois italianos, e que italianos: Marcello Mastroianni é o protagonista, e Tonino Guerra um dos argumentistas. Mastroianni e Guerra são génios naquele registo de cansaço metafísico, de lassidão poética aparentemente sem saída. Cineasta crepuscular, Angelopoulos esqueceu por uma vez a história e a política, e centrou-se totalmente naquele homem envelhecido, Spyros, que encontramos no fim e já depois do fim.

A primeira cena é um casamento sem alegria (“sorriam, é um casamento”, pede o fotógrafo). Spyros casa a filha, mas a boda demonstra a distância emocional que reina naquela família. O filho de Spyros nem olha o pai nos olhos. E a beldade que há muitos anos Spyros conquistou é agora metade de um casal estiolado, extinto. É aquela sensação de que vos falava: logo no princípio já tudo acabou. À boa maneira melancólica italiana, a festa serve mais pelo efeito de fim de festa. E depois fica cada um entregue à sua solidão. Ao seu epílogo. 

O epílogo de Spyros é uma pequena odisseia através da Grécia, de Norte a Sul. Professor aposentado, ele é apicultor por tradição, e percorre o país à procura de mel, transportando dezenas de colmeias na sua carrinha. O trajecto de Spyros, vamos percebendo, acaba por se fazer aos estremeções, menos pelo programa prévio de trabalho do que pelos humores imprevistos, pelas súbitas coragens ou nostalgias. Pode tentar a reconciliação com uma filha, pode testar um desastrado recomeço conjugal, ou visitar a casa da infância. Nada fica realmente resolvido, ele não encerra de facto nada, nem creio que se reconcilie. Faz uma última volta, como os atletas depois da vitória. Que neste caso é uma derrota.

Angelopoulos é um dos grandes cineastas do plano de conjunto. Paisagens industriais desoladas, cafés vazios, estações de serviço, velhos cinemas, vivendas degradadas, o intimismo consegue-se também pela imagem panorâmica, pelas sequências longas e fluidas que obedecem a uma planificação irrepreensível. Como todos os poetas, Angelopoulos tem uma paixão pelo tangível, árvores, regatos, nevoeiros, um copo de vinho, uma toranja, um pincel de barba. As cores são o cinzento, o amarelo esmaecido, o rosa cheio de humidade. E há o infeccioso zumbido das abelhas.

Spyros continua no seu ofício, mas já sem vontade, sem gosto. O seu diário, talvez escrito, talvez mental, é um adeus aos sítios. “Vivi aqui há muitos anos”, ensaia ele como resposta, quando lhe perguntarem o que faz naquela casa onde já viveu, “vivi aqui há muitos anos” pode ele dizer do mundo em geral, onde já não vive. Está aposentado do mundo, tornou-se frio e inacessível. Sempre que encontra alguém conhecido, só têm um tema: o tempo passa, tudo passa, só fica a decepção. 

Então o que é aquela espécie de amour fou, aquela relação entre Spyros e uma rapariga (Nadia Mourouzi) a quem dá boleia? É mais “louco” do que “amor”. Ela anda sem eira nem beira, esfomeada, desenvolta, grata, lasciva, imprevisível. Ele leva-a com ele na viagem, mas nunca chega a haver uma hipótese amorosa, só o fantasma disso. A princípio Spyros nem lhe dá confiança, menos muito permite qualquer envolvimento sexual. É um pai que está a ajudar uma filha que não é dele.

Só quando Spyros desiste totalmente do mundo é que se agarra com força à rapariga. Pode parecer um contra-senso, um homem velho devia rejuvenescer com uma mulher jovem, mas Spyros tem a velhice na alma, nenhuma noite de amor cura isso. Spyros porta-se com a rapariga como se fosse um adolescente, com cenas de ciúmes e um ardor erótico febril, mas não vale a pena querer a vida quando a vida já não nos quer a nós. Após um longo epílogo, O Apicultor termina onde começou. Depois do fim. Sem os seus íntimos, afastados, doentes, esquecidos, e sem a rapariga, que também partiu, o apicultor fica definitivamente só. Com o rosto desprotegido, atira os cortiços ao chão e entrega-se às suas abelhas. São as únicas amigas que tem no mundo.

[Público, Dezembro de 2009]

1/24/2012

Todas as respostas

E ainda antes dos 40 cheguei a não ter nenhuma resposta às grandes perguntas e, mais triste ainda, a ter todas as respostas às perguntas pequenas.

1/23/2012

Que em um tempo choro e rio

Demorei uns minutos até perceber de onde conhecia a canção, não tenho esse álbum nem nada, mas ao ouvi-la houve um imediato reconhecimento emocional, mas sem um local ou um rosto, de onde vinha essa recordação, insistente como um zumbido? Lembrei-me então, uma vez íamos de carro e começou a tocar «I Want You», não sei se percebemos logo que era o Costello, mas achamos divertido porque era um longo pedido a uma mulher, um «I want you» constante e cada vez mais lancinante, e eu tinha-lhe contado acerca de um pedido desses, e ele tinha ouvido sem dizer coisa alguma, e então ríamos, dizíamos «chega, ela está conquistada», nem percebemos o que ele cantava, a situação terrível, só ríamos, «chega, já está, não é preciso mais, ela já disse que sim», ríamos, era talvez de noite, Costello desfazia-se nas colunas do automóvel, e não há nada mais triste do que perder um amigo.

Atracções

















It's the way your shoulders shake and what they're shaking for 

Incompetência (2)

Não atribuas à virtude aquilo que se deve à incompetência.

Incompetência (1)

Tentaram-me com a lisonja, que não suporto, e ameaçaram-me com o ostracismo, que não temo.

Um humanismo da imperfeição

Os Descendentes é um filme adulto, Alexander Payne é sempre adulto, mas este é um Payne mais discreto, menos demonstrativo, sem grandes efeitos emocionais ou satíricos. É curioso notar como o filme articula os grandes temas da mundividência conservadora. Temos a tradição, perpetuada através da afinidade, da propriedade e da transmissão. A fidelidade, atávica, inquieta, brutal. A família, célula frágil mas regenerável. A perda e os indispensáveis rituais de recomposição. Mas Payne não tem nenhuma agenda e evita qualquer determinismo. «Everything just happens», diz-se a certa altura, é preciso continuar apesar do que acontece, apenas isso, uma aceitação serena e triste, um humanismo da imperfeição.

1/20/2012

Espero que seja demasiado tarde

I hope that our few remaining friends
Give up on trying to save us
I hope we come out with a fail-safe plot
To piss off the dumb few that forgave us

I hope the fences we mended
Fall down beneath their own weight
And I hope we hang on past the last exit
I hope it's already too late