Política da verdade (2)
Ainda que se deva distingui-los, os factos e as opiniões não se opõem uns aos outros, pertencem ao mesmo domínio. Os factos são a matéria das opiniões, e as opiniões, inspiradas por diferentes interesses e diferentes paixões, podem diferir largamente e permanecer legítimas enquanto respeitarem a verdade de facto. A liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os factos não estiver garantida e se não forem os próprios factos o objecto do debate. Por outras palavras, a verdade de facto fornece informações ao pensamento político tal como a verdade racional fornece as suas à especulação filosófica.
É uma ideia ousada dizer que factos e opiniões não se opõem. Leio isto com alguma felicidade intelectual. O que são os factos? Arendt diz que há uma «verdade de facto» e uma «verdade da razão», e que uma deve respeitar a outra. Só que, como também escreve, «quem diz a verdade tende a tornar o facto em opinião». Isso é assim porque há os tais «interesses» e «paixões» que conduzem a uma interpretação. Isso quer dizer que não há factos? Arendt sugere que os factos não existem em si mesmos, mas que são apuráveis através de um processo relacional, das circunstâncias, das testemunhas (e das «provas», imagino, embora ela não use essa palavra). Seja como for, essas reflexões valem para a investigação histórica, para a verdade jornalística, para a reconstituição judicial, mas não nos dizem nada sobre a vida íntima (que, diga-se, não é o tema do ensaio). A vida íntima é a total ausência de fronteira entre factos e opiniões. Quando escrevo alguma coisa, há quem me pergunte sobre os «factos» relatados, quando na verdade são apenas interpretações, moldadas pelos interesses e muito moldadas pelas paixões.
É uma ideia ousada dizer que factos e opiniões não se opõem. Leio isto com alguma felicidade intelectual. O que são os factos? Arendt diz que há uma «verdade de facto» e uma «verdade da razão», e que uma deve respeitar a outra. Só que, como também escreve, «quem diz a verdade tende a tornar o facto em opinião». Isso é assim porque há os tais «interesses» e «paixões» que conduzem a uma interpretação. Isso quer dizer que não há factos? Arendt sugere que os factos não existem em si mesmos, mas que são apuráveis através de um processo relacional, das circunstâncias, das testemunhas (e das «provas», imagino, embora ela não use essa palavra). Seja como for, essas reflexões valem para a investigação histórica, para a verdade jornalística, para a reconstituição judicial, mas não nos dizem nada sobre a vida íntima (que, diga-se, não é o tema do ensaio). A vida íntima é a total ausência de fronteira entre factos e opiniões. Quando escrevo alguma coisa, há quem me pergunte sobre os «factos» relatados, quando na verdade são apenas interpretações, moldadas pelos interesses e muito moldadas pelas paixões.

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