10/13/2009

Bela coda

Ele quer «abraçar» uma cidade (a cidade «romântica» por excelência, no less), uma vez que não consegue «abraçar» ninguém (embora haja referências a outras actividades braçais). Só «a pedra e o aço» («stone and steel», boa aliteração) «aceitam» o amor dele. E pronto, «abraça» uma cidade (o dinâmico «throwing my arms around», como se saúda alguém numa estação de comboios). E no entanto, há ainda uma pequena coda (eu disse «coda»). Parece que ele foi rejeitado não apenas pelo mundo em geral mas por uma pessoa em especial (uma pessoa «especial»). Rejeitado sem margem para dúvidas. A canção termina: «Yes you made yourself plain / Yes you made yourself very plain». Ou seja:«foste muito explícita» [o «neutro» do inglês é aqui masculino, mas eu não sou neutro e prefiro o feminino]. Tu foste muito clara, directa, explícita: «very plain». Mas «plain» significa também «normal», «banal», «vulgar». E se ele estivesse a dizer: «Tornaste-te vulgar / Tornaste-te muito vulgar»? Afinal, a rejeição é a quebra do encantamento, e quem parecia «especial» torna-se subitamente vulgar. Rejeitando-me, e do modo como me rejeitaste, tornaste-te uma pessoa vulgar, tornaste-te uma pessoa muito vulgar. Bela coda.

[Morrissey, «I'm Throwing My Arms Around Paris», Years of Refusal, 2009]