Cinematografia do parafuso

Cansado, fui ver um filme de terror à meia-noite. Deram-me uns óculos na bilheteira, porque aquela versão passava «em três dimensões». Lembrei-me dos fiascos dos anos 1980 com quase todos os filmes «a três dimensões» que vi (ainda tenho os óculos nalguma gaveta). Este, no entanto, era mesmo a sério. Final Destination 4, assim se chamava, uma coisa desinteressante com os elementos do costume: premonições, degolações, nádegas adolescentes. Mas logo na primeira cena as dimensões saltam do ecrã: há uma corrida de automóveis, um dos automóveis perde um parafuso e o parafuso sai disparado, em direcção aos espectadores. Fiz, como muita gente na sala, o gesto instintivo de proteger a cara, seguido de uma risada geral de embaraço e espanto. E de repente, num filme irrelevante, com um truque antigo, senti a afinidade com aquelas pessoas que fugiam do comboio dos Lumière, porque pensavam que ele ia sair da tela e levar tudo à frente. Foi disso que gostei no salto daquele parafuso. E gostei dos efeitos daquela parafernália técnica: as cores que pareciam acrescentadas, a coreografia dos movimentos, a dimensão especial esticada, cheia de buracos entre as figuras humanas, uma espécie de profundidade de campo horizontal. A história do cinema está no princípio, e sempre que avança volta ao princípio.

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