10/20/2009

Fantasmas em loop

Aquilo que mais me impressiona em Seis Personagens à Procura de Autor não é o «teatro dentro do teatro»; afinal, em 1921 já havia há muito Hamlet (1599/1601), La vida es sueño (1635), L’Illusion Comique (1636), L’Impromptu de Versailles (1663) ou Les Acteurs de bonne foi (1748).

O que mais me impressiona é que seja uma perpétua história de fantasmas.

Fantasmas são aqueles tétricos «regressados», que um autor abandonou, e que reclamam o direito à existência. Fantasmas são aqueles actores que acreditam que a ilusão é um truque, uma questão de cenários adequados e virtuosismo psicológico. Uns como outros estão presos, imobilizados, seria possível uma versão de Seis Personagens em loop, recomeçando mal chega ao fim.

As Personagens, que existem num limbo, conhecem o seu passado e futuro, conhecem a veracidade dos factos imaginados, e estão condenadas a repetir o seu romance familiar a terceiros: a quem os represente. Os actores, pessoas mutáveis, estão condenados a acreditar que o contrário da ilusão (que representam) é a realidade, e que a realidade é por isso mais «verdadeira».

Entre o hieratismo arrogante de uns e a histeria melindrosa de outros não há comunicação possível. Entre as «duas peças» não há comunicação, porque nem há peça nenhuma, apenas um esboço e um ensaio. Personagens e actores interagem através de palavras abstractas, uns tentando expurgar as suas culpas, os outros dando continuidade ao seu jogo, mas mesmo esse trânsito é trôpego, porque a invenção não dispensa a exactidão.

Quando os espectadores da estreia italiana gritaram «manicómio» estavam indignados; mas deviam também estar com medo.


















[Seis Personagens à Procura de Autor esteve em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa, na tradução de Mário Feliciano e Fernando José Oliveira, e com encenação de Jorge Silva Melo]