A cidade e as serras
O ano passado vi em Londres uma reposição de The Country (2000), e ontem li The City (2008), duas peças de Martin Crimp. É um impressivo díptico sobre a ameaça, na melhor tradição de Pinter, com situações ambíguas, personagens enigmáticas, uma sonoridade poética dos diálogos concisos e vagos. The Country é uma demolição do «idílio pastoral», da ideia bucólica de que no campo as coisas são diferentes, essa noção antiga no pensamento ocidental, das Geórgicas a Rousseau e aos hippies. O casal que tem uma «casa de campo» quer «começar de novo» no campo, longe das drogas e da infidelidade e da incomunicabilidade. Não o conseguem, de modo nenhum, sobretudo a partir do momento em que aparece uma rapariga que destrói o equilíbrio já precário daquele casamento. É interessante como a «masculinidade» é escarnecida pelas mulheres tanto em The Country como em The City; se na primeira temos um médico incompetente, na segunda há um marido desempregado, ambos homens fracassados na sua dimensão pública, e portanto diminuídos na sua imagem privada. Mas The City vai mais longe. Na cidade tudo é mais evidente do que no campo. Fora de casa só existem duas realidades: a guerra e o trabalho (que é uma selva ou um tédio). Em casa só existem medos, especialmente medo de intimidade, medo dos vizinhos, medo das crianças. A diferença é também outra: enquanto que The Country desfaz uma utopia, The City é já uma distopia. Uma distopia que vai ao ponto de supor que todos os outros existem apenas na nossa imaginação, no nosso teatro mental; que amigos, vizinhos, filhos, colegas, cônjuges, todos, são apenas uma assustadora ficção.

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