10/16/2009

Demasiado triste para dizer porquê















Quando um artista morre, a morte faz parte do seu trabalho? Num certo sentido, isso acontece com alguns suicidas, cujas obras tendem a ser lidas à luz desse suicídio. Mas no caso de Bas Jan Ader, a morte ficou, como poucas vezes na história das artes, indissoluvelmente ligada ao seu projecto artístico.

Nascido em Göttingen, em 1942, Ader foi um artista conceptual e professor na Universidade de Irvine, Califórnia. Interessei-me por ele por causa de um paradoxo: Ader era um conceptualista romântico. Aparentemente, não se imagina que alguém que faz uma arte programada, cerebral e objectiva, caia no extremo oposto, que é o das paixões exacerbadas. Foi porém o que descobri em
I’m Too Sad to Tell You (1970-71). Trata-se de um conjunto de fotografias e curtas-metragens, uma das quais entretanto perdida. I’m Too Sad to Tell You mostra Bas Jan Ader a chorar. É só isso: o rictus facial do choro, as feições desfiguradas, os olhos semicerrados e inchados, a boca torta, as mãos na cabeça. Não há explicação nem contexto, não há psicologia. O sujeito fotografado está «demasiado triste para nos dizer» o que aconteceu. É por isso que tive um baque quando vi a foto pela primeira vez, porque ali estava a tristeza nua, a tristeza em si, a tristeza como ideia. O que Ader conseguiu, com tanta simplicidade, foi transformar um modo de expressão na verdade que ele exprime. Choramos por várias razões, um número restrito de razões, mas muitas vezes vemos gente a chorar, num restaurante ou no metro, e não sabemos porquê, nem é importante. Eles e elas choram pelas mesmas razões que nós, e o choro empresta de imediato pungência e dignidade e àquela tristeza. Tal como uma declaração de amor, o choro é quase tautológico: é a tristeza a dizer que está triste. Mesmo que esteja demasiado triste para nos dizer porquê. [...]

(no Público de amanhã)