10/08/2009

Doktor Benn



















Homem e mulher na ala dos cancerosos


O homem:
Aqui deste lado estão os úteros apodrecidos,
e deste lado os seios apodrecidos.
Uma cama fétida e depois outra igual.
As enfermeiras revezam-se de hora a hora.

Vem, levanta devagar esta coberta.
Vê, esta grande massa de gordura e de horríveis secreções
já foi tudo para um homem,
foi a sua glória e a sua casa.

Vem, agora vê esta cicatriz no peito.
Sentes o rosário de nódulos brancos e macios?
Podes tocar, não tenhas medo. A carne cede, está dormente.

Aqui está uma que sangra como trinta corpos.
Ninguém tem tanto sangue.
E a esta tiveram que cortar
uma criança do seu ventre canceroso.

Deixam-nos dormir. Dia e a noite. Dizem
a quem chega: aqui o sono cura. Mas aos domingos
acordam-nos, para as visitas.

Quase não se alimentam. As costas
estão em carne viva. Vês as moscas? De vez em quando
as enfermeiras lavam-nos. Como se lava as cadeiras.

Aqui, um túmulo ergue-se sobre cada cama.
A carne está ao nível da terra. O fogo
cessa. O sangue escorre. A cova chama.




Gottfried Benn

[versão, in progress, PM]