10/30/2009

A lâmpada

«Você pensa que as pessoas são todas boas ou más. Pensa que o bem é igual a luz e o mal igual a noite. Mas onde acaba a noite e onde começa a luz? Qual é a fronteira? Sabe por acaso a que lado pertence?». Cito, de memória, um diálogo do notável Corbeau de Clouzot. É um filme feito para desagradar a toda a gente, e desagradou de facto a toda a gente em 1943 (ocupantes, resistentes, comunistas, católicos). O pessimismo de Clouzot é radical: a praga de denúncias anónimas numa terra de província serve ao cineasta para pôr em causa as fronteiras nítidas entre bem e mal. Quando o velho médico diz ao médico mais jovem que não sabe «onde acaba a noite e onde começa a luz», faz baloiçar uma lâmpada suspensa do tecto. A luz e a escuridão balançam, com intensidade expressionista, entre os dois homens, ilustrando a tese do mais pessimista. O outro tenta atacar a tese através da ilustração da tese; diz que é simples distinguir a luz e a escuridão, e como prova disso agarra a lâmpada, para parar a assustadora oscilação. Mas quando toca na lâmpada nua, o médico mais novo queima-se.