Pessoa e a tusa
Ao contrário de David Mourão-Ferreira e outros pessoanos, não leio as cartas a Ophélia Queiroz como «correspondência amorosa». Mais do que cartas de amor, vejo-as como uma espécie de jogo regressivo, sentimentalismo brincado, imaturidade que se sabe imatura. Embora em 1930 já fosse «namorado» de Ophélia, quem realmente deu tusa a Pessoa foi Hanni Jaeger, a atraente e tempestuosa parceira sexual do «mago» Aleister Crowley. Alemã de 19 anos, era branca e «alta, de um louro escuro», como escreveu Pessoa no embaraçoso poema erótico que acaba «Ó fome, quando é que eu como?». Esse poema, de 10 de Setembro de 1930, é provavelmente o único poema erótico de Pessoa, pelo menos de tendência straight (os poemas ingleses são homoeróticos). Em Hanni Jaeger juntou Pessoa a fome a vontade de comer, ambas baldadas. Mas, ainda assim, dar tusa a Pessoa é um feito que devia valer uma estátua à menina Jaeger.

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