10/02/2009

Dominick e Dominique

Quando comecei a comprar a «Vanity Fair», a bíblia americana dos «liberais» endinheirados, cultos e fúteis, fixei-me em três dos seus colunistas. Christopher Hitchens, «trotskista» snobe, erudito e virulento; James Wolcott, crítico cultural eremita mas mundano; e Dominick Dunne, minucioso repórter judicial.

Dunne, que morreu há meses, aos 83 anos, era o menos brilhante dos três, mas parecia movido por uma compulsão pessoal que eu na altura não conhecia. Só descobri quando li «Justice – Crimes, Trials and Punishments» (2001), colectânea dos seus textos na revista. A explicação vem em «Justice: A Father’s Account of the Trial of His Daughter’s Killer», a peça de abertura, que foi também o primeiro artigo de Dunne para a «Vanity Fair», em Março de 1984.

«Justice» é um livro importante para percebermos os Estados Unidos, uma sociedade violenta com uma população prisional de mais de dois milhões de pessoas e que mantém uma cultura de litigância quase maníaca. Os textos reunidos nesse volume tratam de alguns dos casos mais mediáticos das últimas décadas, incluindo a tentativa de homicídio conjugal do socialite Claus von Bülow [que deu o filme «Reveses da Fortuna»], o parricídio e matricídio cometido pelos irmãos Menendez e o uxoricídio de O.J. Simpson. Só este último ocupa mais de duzentas páginas: o telefonema a pedir ajuda, o dream team de advogados, a luva que não servia, o espectáculo mediático, os ecos de «Otelo».
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