11/07/2009

Adeleine Moffat

«Thou hast committed / Fornication: but that was in another country, / And besides, the wench is dead». Sempre me impressionou esta epígrafe: o pudico Eliot a citar o brutal Marlowe.

A citação vem da peça The Jew of Malta (1589/90), e antecede o poema «Portrait of a Lady» (publicado em livro em 1917).

Há um jogo nada evidente (ou demasiado evidente?) entre título e epígrafe. O título do poema remete, claro, para Henry James, ainda mais casto que Eliot, e exímio em «retratos de senhoras», incluindo o da pobre Isabel Archer. A epígrafe, que cola numa só frase o que no original é pergunta e resposta, refere-se a um diálogo entre um frade corrupto e um judeu vingativo.

O poema é o asfixiante monólogo de uma grã-fina neurasténica, pretensiosa, encafuada em queixumes, banalidades, floreados. Mas como é que aquela civilidade stressada, feita de chá e musiquetas, dá lugar a uma tal raiva do sujeito que a ouve?

O «Judeu de Malta» é um selvagem que rompeu as barreiras da repressão. E o burguês tem essa nostalgia, já não suporta o tédio e o falso sofrimento da burguesia. O burguês torna-se então selvagem. E é como se o homem que ouve placidamente a senhora já estivesse noutra vida, e aquela senhora, com quem ele talvez tenha «cometido fornicação», pertencesse a outra terra e a outro tempo. «Além disso, a puta já morreu». Morreu pelo menos metaforicamente no momento em que ele lhe chama puta ou pensa nela como tal.

Os biógrafos dizem que a «précieuse ridicule» vítima de tais rendilhadas ironias e irreprimíveis ganas é uma tal Adeleine Moffat, de Boston, anfitriã mundana de intelectuais. Adeleine Moffat? Que é que isso importa? A mais conhecida biografia de T.S. Eliot dedica a Adeleine Moffat uma única linha.