O fascínio e a repulsa
Há meses, escolhi para capa do meu último livro, que é uma espécie de autópsia de um vivo, uma ilustração do tratado de anatomia de Andreas Vesalius. Quase toda a gente já terá visto os seus impressionantes esqueletos e os seus homens de músculos à mostra. Tive várias reacções a essa capa, umas de repulsa e outras de fascínio. Achei justo. É de fascínio e repulsa que falamos quando falamos de um corpo humano. E Vesalius é um herói do corpo humano. (...)
Conhecemos aquele desenho de Leonardo com o homem como medida de todas as coisas. Vesalius levou essa ideia à letra: tudo para ele estava ligado à estrutura e às funções do corpo humano. Essa foi a sua grande obsessão, a mesma que o levou, com apenas 28 anos, a contestar o clássico dos clássicos da Anatomia, para escândalo geral. Não só ele não aceitava que a ciência ficasse eternamente presa à sabedoria dos antigos, como também não admitia que se pudesse estudar o corpo humano sem ser através do próprio corpo humano. Diz mesmo, numa frase mais exaltada, que o que então se ensinava nas universidades podia ser explicado por qualquer talhante. (...)
[no Público de amanhã]

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