11/03/2009

O Reino dos Ceús

De Alda Merini (1931-2009) só conheço um livro, mas que livro: La Terra Santa (1984). É uma selecção de quarenta poemas escritos nos anos em que Merini esteve várias vezes internada por causa da sua esquizofrenia. De Artaud aos «confessionais» americanos, dos nossos Ângelo de Lima e António Gancho aos Poemas del Manicomio de Mondragon de Leopoldo Maria Panero, o manicómio sempre foi uma experiência humana dos limites, naturalmente gémea da experiência poética. Os poemas de Merini nessa colectânea [traduzida para português por Clara Rowland, Cotovia, 2004] situam-na numa linha de continuidade da poesia órfica italiana, em versão patológica, mas com uma linguagem mais escolhida e esquiva, mais Montale que Campana. Os quarenta poemas são inexcedíveis na descrição da degradação física e mental como aventura espiritual, e tomam de empréstimo a geografia bíblica, como se o manicómio fosse uma versão perversa do jardim das delícias ou do monte das oliveiras. Um dos mais impressionantes poemas descreve precisamente os doentes no jardim do manicómio, multidão mansa, pensativa, festiva, alheada, peripatética. E depois o poema passa para a primeira pessoa do plural, porque quem escreve é um dos doentes, e acaba com em terrível chave bíblica: «Então ouvimos os sermões, / multiplicámos os peixes, / ali, junto ao Jordão, / mas Cristo não estava: / do mundo nos extirpara / como a vis ervas daninhas». Quando esperávamos que dos loucos fosse o Reino dos Céus, nada disso: os loucos amontoam-se como fiéis galileus, fazem de figurantes nos milagres previstos, tudo isso, mas, revelação terrível, «Cristo não estava». E embora ele não estivesse, na verdade éramos nós quem não estava, tínhamos sido aniquilados pela sua ausência, ou pela sua recusa: «dal mondo ci aveva divelti / como erbaccia obbrobriosa», extirpados como vis ervas daninhas.