11/11/2009

Faz o meu género

Faço imediatamente cara de enjoo quando alguém usa a expressão «descansar a cabeça» a propósito de uma ida ao cinema. Quem quer descansar a cabeça deve dormir uma boa soneca.

Dito isto, nem só de Mizoguchi vive o homem, e o cinema de massas tem o seu encanto. Sobretudo o cinema de género, que se alimenta de pequenas variações sobre um código narrativo fixo.

Os géneros que vou seguindo com mais atenção são a comédia romântica e o terror. A comédia romântica é mainstream e «feminina», um género do qual quase toda gente gosta, com excepção de algum cinéfilo académico enconado («só se for um Lubitsch», diz, alisando o tabaco na mortalha). O terror é um «nicho», um género «desagradável» e «masculino», para miúdos e solteirões afásicos. Um é date movie e outro midnight movie. Mas em ambos há uma codificação extrema: existem apenas quatro ou cinco histórias de terror e ainda menos histórias de amor. E é divertido ver como cada cineasta entra nesse jogo, essa espécie de corrida de estafetas em que se pega num legado e se corre uns metros para o entregar ao seguinte.

Às vezes aparece um The Shining ou um When Harry Met Sally, mas é raro, muito raro. Em todo o caso, estamos sempre à espera de uma surpresa, enquanto vamos gozando o prazer antigo da repetição.

E gosto das ilusões sentimentais da comédia romântica e do catastrofismo sexual dos filmes de terror. Não convém descansar demasiado a cabeça nesses assuntos.