De homem para homem

Talvez, como sugeriu um amigo meu, seja preciso uma certa dose de «solidariedade masculina» para apreciar Os Sorrisos do Destino. O mais recente filme de Fernando Lopes é sobre um homem traído e magoado, e gera uma empatia natural entre os machos da espécie. Dá-se além do mais um caso embaraçoso: Lopes confessa que se trata de um episódio autobiográfico, e a ex-mulher do cineasta é uma figura pública. Podíamos esperar por isso um exercício de voyeurismo e ressentimento. Felizmente, não é nada disso. É um quase «divertimento», uma obra assumidamente «menor», mas a ligeireza do tom é muito preferível aos diálogos sisudos e ponderosos dos últimos dois filmes.
O protagonista é um homem «inactual», que detesta telemóveis e conduz um VW carocha. É um sentimental cool, que gosta de boleros e parece obcecado com a arrumação. Um dia, descobre uma mensagem amorosa no telemóvel da mulher, uma senhora «da cultura» um pouco enfadada. Conhece o amante dela, e os dois homens ficam amigos.
Os Sorrisos do Destino é «machista» porque tem um ponto de vista masculino? Sendo um filme confessional, não se vê como podia ter um ponto de vista feminino. É óbvio que simpatizamos mais com o marido enganado do que com a esposa, mas por exemplo o amante é um gajo porreiro, e o marido é um maniento.
O achado foi fazer deste filme uma comédia. Fazer com que a verdiana «força do destino» seja encarada com um sorriso. Daí todos aqueles gags (um duelo ensaiado ao espelho, o filho que anda sempre de patins, o amante que chama o cão cantando o Tristão e Isolda, o esparguete alla putanesca) que só por si cortam qualquer possibilidade de estarmos perante um «revenge movie». Se Fernando Lopes «ajusta contas» com alguém, é sobretudo consigo que ajusta contas, dando de si mesmo um retrato complacente mas cheio de pequenas fracturas, um homem totalmente adulto e no entanto desprotegido, infantil.
O que é mais inactual no protagonista do Os Sorrisos do Destino não é ele detestar telemóveis e computadores; o que isso revela é que ele despreza a comunicação imediata que multiplica as possibilidades e instabiliza as relações pessoais. Lopes não idealiza o casamento, mas acredita no casal. E por isso, septuagenário, não se conforma com o mercado da sexualidade, mais do que dos sentimentos (veja-se o prólogo, com a sexualidade hipermoderna de uma modelo fotográfica). Lopes, como o seu protagonista, é um romântico. Ou, como ele diz, um «etéreo-sexual». Leva daqui um abraço de homem para homem.
[na foto: Ana Isabel, a modelo do filme]

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