Louvre
Em casa com uma bela gripe B, leio Lowell, nomeadamente os poemas conjugais em que ele usa cartas de uma das ex-mulheres, Elizabeth. Com esse estratagema, o famoso confessionalismo de Lowell torna-se um teatro, mas um teatro questionável, em que a outra parte está condenada a aparecer apenas citada, repetindo estaticamente as coisas que escreveu um dia. Legalmente, as cartas pertencem ao destinatário, que pode fazer delas o que bem entender, mas eticamente é censurável a revelação da vida íntima de terceiros. Nos poemas conjugais, Lowell faz dessas cartas uma forma de ventriloquismo. E muitos dos seus leitores não conhecem só o bonecreiro: conhecem os bonecos. Alguém escreveu que «criticism of Lowell’s work must, of course, eventually name names», até porque Jean Stafford e Elizabeth Hardwick eram figuras públicas, e para mais escritoras, e além disso escreveram mais ou menos a sua versão da história [Jean até tem um conto sobre o acidente de automóvel que eles tiveram quando Lowell, bêbedo, ia a conduzir, episódio especialmente kinky para mim por razões que não vos dizem respeito]. E no entanto, o que é isso interessa aos poemas enquanto poemas? Acho que é preciso lê-los pelo que são, e não pelo modo como foram feitos. Também não andamos pelo Louvre a pensar que isto e aquilo foram peças pilhadas pelos exércitos napoleónicos. É a colecção do museu, isso é que importa. As peças têm uma história, mas acima de tudo existem, valem pelo que são, valem pelo que valem.

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