12/03/2009

Avenida da liberdade

Perguntam-me com frequência se tenho «certeza absoluta» de que Deus existe. Respondo sempre que a fé, embora não seja inabalável nem esteja isenta de dúvidas, é uma forma de certeza. Um crente é alguém que acredita, e se acredita tem a certeza. A palavra «absoluta» parece-me redundante, e se alguém a exige é para dar uma tonalidade dogmática à certeza, e portanto para a tornar absolutista. Todas as certezas são relativas, pois todas estão sujeitas a contraprova.

Claro que a «certeza» de que Deus existe não é igual à certeza com que, ao descer a Avenida da Liberdade, sei que estou a descer a Avenida da Liberdade. Há uma certeza empírica que, em geral, é evidente e não admite contradição.

Admito porém que ao descer a Avenida da Liberdade possa estar dentro de um sonho ou de um pesadelo, ou a sofrer de delírios alcoólicos ou psicotrópicos, e também é possível que a «realidade» seja uma «construção mental» como em Berkeley ou uma «ilusão» como em Dick. Em todo o caso, se não se importam, eu quando desço a Avenida da Liberdade acho que estou mesmo na Avenida da Liberdade. Tenho a certeza.

O mesmo com Deus: se eu acredito em Deus, tenho a certeza, embora, felizmente, não possa provar a existência de Deus e possa provar a existência da Avenida da Liberdade: o Tivoli, o consulado de Espanha, as putas, a loja das revistas estrangeiras.

[o tópico «Avenida da Liberdade» deve alguma coisa a um texto de Miguel Tamen]