Hipertexto

Lembram-se do Dicionário Khazar? Há duas décadas estava na moda. O romance do sérvio Milorad Pavić (1929-2009) foi publicado em 1984 e traduzido em várias línguas, incluindo o português. É a história do povo Khazar (do Cáucaso) reinventada por Pavić, em entradas de leitura aleatória que funcionam como uma enciclopédia. Não é certamente o primeiro caso de uma espécie de «hipertexto» na literatura (John Barth levava décadas de avanço), mas é um dos mais estimulantes. Pavić constrói uma civilização, insistindo nos aspectos religiosos, mas também num folclore fantástico, em episódios grotescos, na filosofia poética e na erudição fraudulenta. É uma bela investigação da Europa a partir dos seus extremos (geográficos), um delírio culto que deve muito a Borges e anuncia a nossa navegação na Net, cruzando informação talvez infundada. O Dicionário Khazar (que já não encontro nas livrarias), apresentava duas «versões», uma dita «masculina» e a outra «feminina»: tinham apenas uma frase diferente.

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