12/23/2009

A história das lágrimas



Quem escreverá a história das lágrimas?, perguntava Barthes, e podemos responder: Jesper Just, por exemplo.

Já tinha lido referências aliciantes ao trabalho de Just (n. 1974), e por um triz falhei uma exposição em Londres. Depois, encontrei alguns vídeos no YouTube. E agora vi finalmente ao vivo, na Gulbenkian, uma exposição individual do dinamarquês. São vídeos curtos, muitas vezes com homens a chorar. Os meus preferidos são No Man is a Island II (2004) e Something to Love (2005).

No primeiro, Just escolhe um típico ambiente masculino, um bar de solteiros, que filma em registo estilizado e com um grande investimento naquilo que em cinema se chama «direcção artística». No microcosmos acolhedor mas triste do bar, cheio de homens de meia-idade calados, de repente um rapaz começa a cantar «Crying», de Roy Orbison, e aos poucos todos os homens se levantam e o acompanham, emocionados.

No outro vídeo existe, como em tantos trabalhos de Just, uma relação ambígua entre dois homens (uma relação filial? edipiana? erótica?), às voltas de carro numa garagem desolada. Depois, o rapaz vai ter com uma mulher loira, e o par beija-se, de pé num chão giratório, rodopiando com uma música instrumental quase infantil. E do lado de fora fica o homem mais velho, que os espreita como se aquilo um peep-show ou uma caixinha de música. O homem mais velho chora.

Essa capacidade de escrever a história das lágrimas é o que me toca em Jesper Just. Ele destrói a ideia tenebrosa da «masculinidade» e põe em cena homens a transbordar de emoções (medo, amor, desesperança, culpa, ânsia) mas inibidos. A inibição dos sentimentos «típica» do homem nórdico, mas também a repressão exigida pela da «masculinidade» e a sua representação pictórica. Os homens de Just estão em silêncio mas vivem desejosos de quebrar o silêncio, seja de modo absurdo e divertido, seja de modo visceral e pungente. Há um esboço narrativo nos vídeos de Just mas não há psicologia; ou antes: há uma psicologia nunca explicitada, em que nos projectamos e criamos sentidos.

É um belo projecto: fazer dos nossos silêncios e medos uma passagem da indecisão para uma espécie de decisão. Primeiro calamos, depois cantamos e dançamos e choramos.