Morangos silvestres

Da «geração morangos», a Benedita era quem me mudava o estado civil, e já conhecem as minhas odes à Cláudia (que aliás conheci e é uma simpatia, e que além do mais está muito bem casada). A minha terceira moranguita preferida é a Joana Duarte. Ao contrário da Benedita e da Cláudia, que me provocam uma certa liquefacção emocional, a Joana mete-me um algum medo. Uma amiga comum (minha e dela) dizia-me outro dia: «os olhos da Joana atravessam as pessoas». Na verdade, Joana Duarte é das três aquela que representa um modelo radicalmente novo de mulher portuguesa. Benedita tem o reconhecível travo upper class, altivo e elegante. Cláudia é a mulher true blue, que desarma pela simplicidade e ausência de pretensão. Mas Joana Duarte, isto é, «Joana Duarte» (a figura pública, não a pessoa em concreto) representa a rapariga portuguesa deste século, a rapariga a quem finalmente chegou a revolução sexual. Está escrito no corpo dela. Há mulheres igualmente magras e mais opulentas, mas em poucos corpos como o de Joana Duarte vemos uma opção escultórica tão assumida, a consciente vontade de trabalhar o corpo como uma escultura. Aquele binómio cintura/glúteos está a ser estudado por Peter Zumthor para uma severa conferência em Basileia. Depois, os olhos. Os olhos de Joana Duarte são pós-trágicos; o mundo que ela habita é um mundo essencialmente lúdico. Um mundo veloz, competitivo, aventuroso, perigoso, afirmativo, instantâneo. Os olhos de Joana Duarte «atravessam as pessoas» porque a rapariga portuguesa contemporânea dispensa os rituais e rodeios ancestrais, afirma muito claramente a sua vontade e o seu à-vontade. O sexo é finalmente uma coisa natural na geração de Joana Duarte, como nunca foi em Portugal. A naturalidade com que ela está nas fotos das revistas masculinas é a naturalidade sem pecado a Norte do Equador. Tudo é sedução e promessa. Mas além disso, Joana Duarte cultiva para a fotografia alguns traços adolescentes mais situados, mais explicitamente não-adultos. Dois exemplos: a quantidade de fotos em que ela aparece ou de língua de fora ou a fazer aquele gesto com o polegar e o mínimo estendidos. Uma espécie de look «radical» e «rebelde», quando essas palavras já foram totalmente assimiladas pelo mainstream. Ela sente-se bem assim, she’s having fun, não tem a passividade «de objecto» que seria esperada, vejam como os dentes, branquíssimos e quase sempre cerrados, são o elemento mais forte do seu rosto, juntamente com os olhos, como ela faz claramente aquilo que quer e leva tudo à frente. Joana Duarte é uma mulher representativa da juventude portuguesa (em versão the happy five percent) assim como Megan Fox é representativa da juventude americana. De uma juventude que se dá em espectáculo: I do live in a glass box.

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