12/11/2009

Os dois corpos de Van Dyck
















Carlos ficou impressionado com a glória que Ticiano emprestou aos Habsburgos. E quis alguém da mesma grandeza que o imortalizasse. Alguém que celebrasse na tela a monarquia por direito divino. Esse homem foi Antoon van Dyck, jovem artista nascido em Antuérpia e que trabalhava no estúdio de Rubens.

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Uma das grandes invenções de Van Dyck é o duplo retrato, com dois homens, amigos ou aliados, estáticos na sua aliança que na tela ficou perpétua. Num desses duplos retratos está o próprio Van Dyck com o amigo e patrono Endymion Porter (1633). Um cavalheiro de meia-idade, corpulento e vivaz, e outro sujeito mais novo, o próprio artista, magro e esquivo, ambos serenos e orgulhosos da sua amizade. É um dos auto-retratos mais comoventes que conheço.

Os retratos femininos são em geral menos interessantes, com uma excepção: Margaret Lemon, a tempestuosa amante de Van Dyck. Ela surge em várias situações alegóricas e mitológicas, e num quadro está de camisa de dormir arregaçada que destapa com alegre despudor a brancura carnal de um braço. E também há um pequeno desenho onde ela aparece a dormir, cabeça caída e boca carnuda entreaberta. No meio da acalmia aristocrática em véspera de tempestade, gostei do pequeno tumulto que Margaret Lemon causava naquela exposição. Entre elegância e autoridade, um rasgo de paixão caótica. Foi como se tivesse visto os dois corpos de Van Dyck.


[no Público de amanhã]