9/30/2009

A Bélgica e a Alemanha

Quando lhe perguntaram se imaginava o que os historiadores diriam sobre o começo da guerra, Clemenceau disse que não fazia ideia, mas estava certo de que «não dirão que a Bélgica invadiu a Alemanha».

Aurélio Pereira #1


















Felicity Jones nasceu em Birmingham em 1984. Estudou Literatura Inglesa no Wadham College, Oxford. Fez teatro e televisão, incluindo, claro, personagens de Jane Austen. No cinema, entrou em Brideshead Revisited (2008) e Chéri (2009), Waugh e Colette, portanto. Vai fazer a versão cinematográfica de The Tempest, de Shakespeare, e merece sem dúvida o papel de Miranda. What's not to like?

A rapariga da lei seca

There was a young person in pink,
Who called out for something to drink;
But they said, 'Oh my daughter,
There's nothing but water!'
Which vexed that young person in pink.


(Edward Lear)

Política da verdade (2)

Ainda que se deva distingui-los, os factos e as opiniões não se opõem uns aos outros, pertencem ao mesmo domínio. Os factos são a matéria das opiniões, e as opiniões, inspiradas por diferentes interesses e diferentes paixões, podem diferir largamente e permanecer legítimas enquanto respeitarem a verdade de facto. A liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os factos não estiver garantida e se não forem os próprios factos o objecto do debate. Por outras palavras, a verdade de facto fornece informações ao pensamento político tal como a verdade racional fornece as suas à especulação filosófica.

É uma ideia ousada dizer que factos e opiniões não se opõem. Leio isto com alguma felicidade intelectual. O que são os factos? Arendt diz que há uma «verdade de facto» e uma «verdade da razão», e que uma deve respeitar a outra. Só que, como também escreve, «quem diz a verdade tende a tornar o facto em opinião». Isso é assim porque há os tais «interesses» e «paixões» que conduzem a uma interpretação. Isso quer dizer que não há factos? Arendt sugere que os factos não existem em si mesmos, mas que são apuráveis através de um processo relacional, das circunstâncias, das testemunhas (e das «provas», imagino, embora ela não use essa palavra). Seja como for, essas reflexões valem para a investigação histórica, para a verdade jornalística, para a reconstituição judicial, mas não nos dizem nada sobre a vida íntima (que, diga-se, não é o tema do ensaio). A vida íntima é a total ausência de fronteira entre factos e opiniões. Quando escrevo alguma coisa, há quem me pergunte sobre os «factos» relatados, quando na verdade são apenas interpretações, moldadas pelos interesses e muito moldadas pelas paixões.

9/29/2009

Política da verdade (1)

É uma velha e complicada história a do conflito entre a verdade e a política, e a simplificação e a predicação moral de nada serviriam. No decurso da história, os investigadores e aqueles que dizem a verdade estiveram sempre conscientes dos riscos que corriam; enquanto não se misturavam nos negócios do mundo eram cobertos de ridículo, mas aquele de entre eles que forçava os seus concidadãos a tomá-lo a sério procurando livrá-los da falsidade e da ilusão, esse arrisca a vida (...)
(Hannah Arendt, Truth and Politics, 1967)

É mais ou menos isso que me afasta da política. Não só em política a «verdade» é impossível (e a «predicação moral» da verdade insuportável), como a política é de alguma forma a imposição de uma verdade, com ou sem aspas. É ingénuo querer fazer uma «política de verdade», até porque a política é ou pragmatismo ou ideologia, e nada disso tem a ver com «a verdade». Eu nunca «arriscaria» a vida nesse empreendimento. Forçar concidadãos não é comigo. Livrá-los da falsidade e da ilusão é coisa em que não acredito, porque eu próprio nunca me livrei da ilusão e só ilusoriamente evitei a falsidade. Prefiro manter uma certa distância face aos «negócios do mundo». E ser naturalmente «coberto de ridículo» por causa dessa escolha.

Garbo talks


















Em 1930, quando Greta Garbo fez o seu primeiro filme falado, Anna Christie, a MGM cunhou a grande frase publicitária «Garbo Talks!» Eu até gosto mais de Garbo muda, mas às vezes, de facto, é preciso que as pessoas falem, sobretudo quando o silêncio se tornou um peso insustentável. Mas suspeito que ninguém quebrará o silêncio com uma frase tão estilosa como a da Garbo: «Give me a whiskey, ginger ale on the side, and don't be stingy, baby».

Yeah. I do.

VAGABUNDO: D’you know what I mean? You know? You know? D’you know?

POPPY: I know!

VAGABUNDO: It’s -, it’s -, it’s -, it’s -, it’s, it’s -, it’s -,

POPPY: Isn’t it, just?

VAGABUNDO: You know? You know, it’s...you know, they, they, they, they, they -

POPPY: Do they?

VAGABUNDO: They’re not, they’re not, they’re not - they’re not; they’re not. D’you know?

POPPY: No.

(…)

VAGABUNDO: He’s, he’s, he’s -

POPPY: Is he?

VAGABUNDO: You know? He’s....And, and, and, he’s, he’s, he’s - d’you know, he’s -

POPPY: Oh, no!

VAGABUNDO: He’s, he’s, he’s...

POPPY: Oh, no!

(…)

VAGABUNDO: D’YOU KNOW WHAT I MEAN? - YOU KNOW?!!

POPPY: Yeah, yeah!

VAGABUNDO: She’s, she’s, she’s, she’s, she’s, she’s, she’s - you know, she’s, she’s, she’s - you know, she’s, she’s, she’s, she’s, she’s, she’s, you know, she’s, she’s - she was, she was, she was so...

POPPY: Was she?

VAGABUNDO: She wouldn’t, you know - she wouldn’t, she wouldn’t, you know, she wouldn’t - I’m, I’m, I’m, you know, I’m, I’m, I’m not, you know - I’m not, you know, I’m, I’m, I’m...he...he...he...he, you know, he ...but you know, they’re, they’re, you know, they’re, they’re...you know what I mean?

POPPY: Yeah. I do.


[Stanley Townsend e Sally Hawkins em Happy-Go-Lucky, 2008, de Mike Leigh]

Sobre a verdade e a mentira em sentido extra-moral


















A maneira como duas mulheres que amei me mentiam. Uma por omissões, «o que não sabes não te magoa», por, digamos, boas razões, boas coisa nenhuma, por desconversas quase ínvias, uma ou outra vez com o que chamava «mentiras brancas» e depois, em momentos de agressão, com a verdade, talvez uma verdade exagerada, nunca saberei. A outra como se fosse a Rainha de Inglaterra, com um recato que a enobrecia, uma contenção rematada com migalhas de alta moralidade, e depois a mentira descarada e mascarada, para que passasse por uma boa alma, logo ela, que acredita na agressividade como a convergência ideal entre o primitivo e o civilizado. Também amei uma mulher que nunca me mentiu. Foi igualmente violento, mas prefiro a violência da verdade.

9/28/2009

Alabama















Neste assunto sou como a Rosa Parks: não me levanto, não obedeço, não cedo o lugar que é meu, não abdico daquilo a que tenho direito nem vos dou licença para que definam quais são os meus direitos. O Alabama é tanto meu como vosso. Habituem-se. Vão ter que me aguentar neste autocarro todos os dias, gostem ou não. E olhem que eu não vos peço que gostem, eu não vos peço nada. Eu exijo. O Alabama também é meu.

A lista da vergonha

A melhor notícia política dos últimos tempos é a anunciada intenção do Governo japonês em abolir a pena de morte. Em 2008 foram executadas no mundo 5.727 pessoas. A China lidera o pelotão, com pelo menos 5 mil vítimas. Seguem-se estes países, por ordem decrescente: Irão, Arábia Saudita, Coreia da Norte, Estados Unidos, Paquistão, Iraque, Vietname, Afeganistão, Japão, Iémen, Indonésia, Líbia, Sudão, Bangladesh, Bielorrússia, Somália, Egipto, Emiratos Árabes Unidos, Malásia e mais um punhado deles. Como vêem só há três democracias: o Japão, agora abolicionista; a Indonésia e os Estados Unidos. Os Estados Unidos estão em quinto lugar nesta lista da vergonha. Pode ser que o exemplo do Japão faça o seu caminho, que os Estados Unidos tenham vergonha da companhia. E depois mudem de ideias. Obama, que é «mais popular que Jesus», pode dar uma ajudinha.

Nojento, diz ele

Watergate ou não, aconteceu há dias um facto grave: a publicação no Diário de Notícias de uma troca de mails privada.

Estamos perante um acto nojento do ponto de vista ético e deontológico da profissão: a publicação de conversas constantes de material roubado, pertença de outro jornalista e que quem publica não sabe em que conjuntura se desenvolveram ou até que ponto relatam com autenticidade o que ambos os interlocutores disseram.

Este último parágrafo, esclareço, não é da minha lavra: é uma citação de um texto escrito em 2004 pelo actual director do DN. Assino por baixo.

1985-2009











Soares e Cavaco são as duas figuras mais importantes da minha memória política activa, as únicas, suponho, a quem a História portuguesa dedicará mais que duas linhas. Nunca fui soarista nem anti-soarista. Nunca fui cavaquista nem anti-cavaquista. Nunca votei em nenhum deles.

No caso de Cavaco, é impossível não reconhecer a enorme modernização do país durante o seu consulado. Mas nunca apreciei a entourage cavaquista, e não morro de amores por aquele perfil antigo de político «sério, honesto e trabalhador». São tudo qualidades estimáveis, sem dúvida, mas há outras virtudes que fazem um grande político. Gostar de política, por exemplo. Ter auto-ironia. Ser corajoso e frontal. Ir um pouco além da competência tecnocrática.

Agora, o legado cavaquista está cada vez mais manchado. A catrefa de ex-governantes ligados a crimes financeiros, a encenação grotesca de um Watergatezinho luso e a derrota da ex-ministra mais parecida com Cavaco parecem o princípio do fim do cavaquismo. Assim seja.

9/25/2009

Quem destrói livros














O venezuelano Fernando Báez publicou em 2004 uma excepcional História Universal da Destruição dos Livros, editada em português pela Texto. O ensaio percorre dois milénios e meio de «biblioclasmos», e acentua uma inquietante rima entre eventos ocorridos com séculos de distância: a destruição pelos mongóis das bibliotecas de Bagdade em 1258 e 1393 e o saque da Biblioteca Nacional de Bagdade em 2003, após a invasão americana.

Nenhuma História da espécie humana fica completa sem esse ódio ancestral aos livros. Quem destrói livros destrói a diferença e a memória. Báez sugere que existe uma mitologia da destruição que acompanha os mitos da criação que são o esteio de todas as culturas. Daí que a destruição de livros seja vista como uma espécie de acto de purificação, uma criação invertida. Não é por acaso que tantas vezes se recorre ao fogo, uma descoberta que simboliza a civilização. Quem queima livros sente-se um pequeno deus. (...)


(amanhã, no Público]

Curioso número

Podia glosar José Mário Branco e dizer que voto à esquerda moderada nas sindicais, voto no centro moderado nas deputais e voto na direita moderada nas presidenciais. Não bate totalmente certo, mas ficam com uma ideia, e além disso soa bem.

Domingo temos eleições. Segundo a Bússola Eleitoral, há 75,9 % de possibilidades de eu votar no MPT, 75% de votar PDA (que nem concorre), 73,1% MMS e 71,4 % no PND e no MEP. Parece que sou um gajo dos pequenos. Grande novidade.

Já votei MPT, mas não me estou a ver a deitar em nenhum dos outros (o MMS nem sei bem o que é, excepto que têm problemas com a ortografia). A seguir vêm o CDS e o PSD, ambos com 69,6%, curioso número como dizia o outro. Daí para baixo seguem-se partidos com os quais não tenho afinidades: PNR, PS, MRPP, BE e CDU.

Como me apetece estar «representado» no parlamento, escolho entre os 69. E de entre esses dois escolho o partido que usa de clareza ideológica em vez de ambiguidade pragmática, que fez um bom trabalho parlamentar, que prefere a regulação à estatização, que defende as empresas e a criação de riqueza, que reforça a segurança dos cidadãos, que zela pela decência fiscal, que não hesita nas nossas alianças, que conduziu uma campanha sem disparates nem casos, que é chefiado um político inteligente e articulado. Se se calassem com a demagogia da «preguiça» eu agradecia, mas, tudo somado, vou pôr a cruz sem esforço.

[também publicado no Rua Direita]

9/24/2009


















Confesso que sou ministro: ministro-sombra. Este fim-de-semana há sessão dupla de Governo Sombra na TSF: a edição normal de sexta-feira e um Especial eleições ao fim da noite de domingo. Lembro que Governo Sombra é o único programa que junta um homem processado pelo primeiro-ministro e um dos favoritos ao cargo de primeiro-ministro.

Vontade de ser ministro

Correu em diversos blogues e jornais a «notícia» de que eu teria sido «sondado» para ocupar o cargo de ministro da Cultura num hipotético governo «social-democrata». Houve gente que levou isto a sério, como há gente que acredita que o Elvis está vivo.

A «notícia», que apareceu primeiro na revista Visão, com a minha fotografia e tudo, tem cinco explicações possíveis:

1) é uma extrapolação do facto de eu ter apresentado um livro de Paulo Rangel
2) há tão pouca gente «de direita» na «cultura» que qualquer gato pingado serve
3) alguém no dito partido quis ver como eu reagia a um rumor desses
4) alguém quis pôr-me a ridículo
5) a culpa é do Osvaldo Silvestre.

Amigos e inimigos, descansai: nunca fui «sondado» para coisa nenhuma, não tenho idade, nem currículo, nem vocação, nem vontade de ser ministro.

O país está doido, mas não assim tão doido.

[«Vontade de ser Ministro» é um romance de Luso Soares publicado em 1965]

9/23/2009

Exclamação

Correu em diversos blogues e jornais a «notícia» de que haveria um «movimento» destinado a «proibir» o ponto de exclamação, movimento esse que teria como «manifesto» um texto meu.

Percebi pelo chinfrim que a minha crónica (Público, 12 de Maio de 2007) tinha certamente razão num ponto: o ponto de exclamação é muito amado por quem gosta mais de espalhafato do que de exactidão.

O que aconteceu foi simplesmente isto: houve vários bloguistas que citaram com simpatia essa minha crónica, uma vez que também são pouco exclamativos. Um conjunto de opiniões individuais, que motivou uma «campanha» irónica, e que eu de todo não «inspirei».

A minha crónica não diz que o ponto de exclamação devia ser abolido, muito menos «proibido», uma ideia lunática. Eu não gosto de exclamações, como não gosto de gritos. Que as pessoas gritem, é com elas, desde que o façam em sua casa, antes das dez da noite. O mesmo com as sinalefas.

Escrevi na tal crónica que não usava pontos de exclamação nos meus textos, e expliquei porquê, reconhecendo no entanto que nalguns registos (o diálogo, por exemplo) pode ser útil, e que até há génios da exclamação (Céline e o Capitão Haddock).

Agora inspirar «movimentos»? É coisa de que fujo como o diabo da cruz. Exigir «proibições»? Logo eu, que detesto proibições e que até tomei posição pública contra o patrulhamento da língua portuguesa.

Aliás, se os meus tresleitores exclamassem menos e lessem com mais atenção, tinham dado com o último parágrafo do texto, que começa assim: «Não pretendo embarcar em nenhuma campanha proibicionista, recolhendo assinaturas para o fim da exclamação, muito menos quero a exclamação extinta por um decreto de qualquer Academia».

Mas quando se está aos gritos não se ouve o que os outros dizem. QED.

[crónica republicada no Ciberdúvidas]

9/21/2009

Deus criou

















Há todos os anos duas ou três assombrações, majestosas epifanias, angústias breves, vidas possíveis perdidas numa esquina da cidade. Nos últimos três foi a jovem actriz luminosa que trazia nos braços Walser e Cassavetes; Jani, a rapariga loura surpreendida e altíssima num restaurante algarvio; a confiante e inquisitiva Emmanuelle Béart da Rua Alexandra Herculano; uma cirandante morena vestida de verde que vi duas vezes em centros comerciais; e ontem à tarde a jovem Thurman de lábios doces numa esplanada em Alvalade, capaz de restaurar a monarquia em países onde a monarquia nunca existiu.

Lei seca

Depois da conversão, Agostinho levou uma vida regrada e frugal. Mas nunca deixou de beber vinho às refeições. Explicou: «Eu não receio a impureza do alimento, e temo a impureza da avidez».

9/20/2009

Bons conselhos



O destrambelhado hino hidráulico «Don't Go Home With Your Hard On», de Leonard Cohen, numa versão do malogrado David McComb, dos grandes Triffids.

9/18/2009

Nietzsche em Lisboa

Não sou exactamente um «nietzschiano», até porque pertenço à raça dos fracos e nunca tive a paixão dos fortes. Mas Nietzsche foi precioso para mim.

Foi graças a Nietzsche que me livrei da faceta pietista e ingénua do catolicismo. Foi graças a Nietzsche que descobri a insolência aristocrática. Foi graças a Nietzsche que me entusiasmei com pensamentos inactuais. Foi graças a Nietzsche que escapei à Filosofia sistémica e à «débil». Foi graças a Nietzsche que cultivei o aforismo. Foi graças a Nietzsche que assumi sempre «elitismo» como elogio.

E foi graças a Nietzsche que me fui preparando para lidar com todos estes nietzschianos dos pequeninos que tenho conhecido, esta casta arrogante e gélida, falsa e satisfeita. Não é possível viver em Lisboa sem ter lido Nietzsche. É um manual de sobrevivência intelectual.

9/17/2009

Transforma-se












A definição técnica é também poética: os olhos têm como função «detectar a luz e transformar essa percepção em impulsos eléctricos». Bate tudo certo: detectar, luz, percepção, impulsos. E sobretudo aquele verbo: «transformar».

9/16/2009

O Diabo, provavelmente

Quando a bailarina me atirou para a cova dos leões, ouvi muitas vezes «Red Right Hand».

A «mão direita vermelha» vem de Milton, e representa a «mão vingadora de Deus», o Deus do Antigo Testamento, provavelmente. Já na canção de Cave é, provavelmente, o Diabo, um homem cativante e misterioso que encontramos nos arredores da cidade e que nos ouve, nos compreende, nos oferece um consolo que é uma vingança. Estamos enfim nas mãos do Diabo, ingenuamente justificados e salvos.

Mas claro que ele faz tudo isso por maldade, por premeditação diabólica. E nós somos um ínfimo detalhe: «You’re one microscopic cog / in his catastrophic plan / Designed and directed by / his red right hand».

Em «Red Right Hand» cada promessa é uma ameaça.

É perfeitamente possível, pensava eu na cova dos leões, que esse homem seja ao mesmo tempo Deus e o Diabo: o que é o Diabo senão um deus vingador? E não tinha eu a prova de que Deus também se vinga?

E que arrepio quando Mick Harvey dava uma pancada seca naqueles sinos, como se anunciasse o fim do mundo.

Agora que saí da cova, reencontro «Red Right Hand» numa versão dos Arctic Monkeys. Alex Turner já não acredita em Deus ou no Diabo: agora a canção não ameaça mas cumpre: é ruidosa, raivosa, sarcástica e quase festiva.

É esse, provavelmente, o meu futuro.

9/15/2009

Ela não está

Well, let me tell you 'bout the way she looked
The way she acts and the color of her hair
Her voice was soft and cool, her eyes were clear and bright
But she's not there


Fumigação

«I wonder, truly, if «love» (old whore of a word, we’ll let you in this once, fumigated by quotation marks) (…)»

John Updike, A Month of Sundays (1975)

9/14/2009

Agora a monarquia

É que as minhas «relações» costumam durar tanto como os Governos da I República. São tão opressivas como os Governos da II República. E há sempre muitas mentiras, como nos Governos da III República. Não estranhem que me tenha tornado monárquico.

9/11/2009

É imbecil deixar de conhecer alguém por uma questão de princípios



JEAN-LOUIS: Je sais qu’il faudrait trouver un prétexte, mais un prétexte est toujours idiot. Comment faut-il s’y prendre pour faire votre connaissance?

FRANÇOISE: Vous avez l’air de le savoir mieux que moi!

JEAN-LOUIS: Non! Sinon je ne vous aurais pas suivi comme ça, en dépit de tous mes principes.

FRANÇOISE: C’est très mal de faire des entorses à ses príncipes!

JEAN-LOUIS: J’en fais quelquefois. Et vous?

FRANÇOISE: Oui, mais je le regrette.

JEAN-LOUIS: Moi, je ne regrette rien. Quand j’enfreins mes principes, c’est que ça en vaut la peine. D’ailleurs, je n’ai pas des principes. Du moins sur...

FRANÇOISE: ...la façon de faire connaissance!

JEAN-LOUIS: Oui, je trouve que ce serait bête de rater la connaissance de quelqu’un pour une question de principes.


[Jean-Louis Trintignant e Marie-Christine Barrault, em Ma nuit chez Maud (1969), escrito e realizado por Eric Rohmer. Transcrito a partir da edição em livro dos Cahiers du cinéma, ligeiramente diferente da versão final]

9/10/2009

Agitada e pitoresca


















Só que aí há uma década deu-se que um pingarelho qualquer com umas aduelas a menos e a mania que é do finório se lembrou de atribuir neste nosso santo país o estatuto de ilegal ao rum e a outros xaropes semeáveis. Uma bolha que não lembra nem ao Santo Porfírio, cunhado da Santa Graciana, mas que pegou de estaca de tal maneira que a vida cá prà gente se tornou por um lado menos fácil mas por outro muito mais agitada e pitoresca.

[Se o mundo não fosse assim, de José Maria Vieira Mendes, a partir de motivos de Damon Runyon, no volume Teatro, Cotovia]

A vida habitual

Revolutionary Road, o romance mais conhecido de Richard Yates, renasceu com a reedição em paperback com prefácio de Richard Ford (2001) e com a adaptação ao cinema dirigida por Sam Mendes (2008). O filme é certinho mas sem rasgo (DiCaprio é um caso gritante de miscasting, e Michael Shannon, que fez o esquizofrénico John Givings, rouba as cenas todas). Dá aquilo que o cinema dá bem: as casas e os carros da América de Eisenhower, a vida funcionária de homens de chapéu em estações, mais umas discussões conjugais à Albee. Mas perde-se densidade, angústia, perde-se a ideia de Yates de que a revolução de 1776 descarrilou algures por 1950.

Revolutionary Road é uma obra fundamental do realismo crítico e acessível, já não uma literatura empenhada à Dreiser e ainda não uma sofisticação da escola New Yorker. E no entanto Yates tem as mesmas obsessões de Cheever, bem como de escritores um pouco mais novos, como Dubus ou Updike. Já lá está toda a panóplia da decepção burguesa, da decomposição conjugal, da mudança de costumes, mas tudo ainda se faz por remissão a um «sonho americano» que terá caído em colapso. Revolutionary Road não inventou «o subúrbio», mas fez dele uma categoria filosófica indispensável para compreender determinado tempo, um pouco como a «juventude inquieta» dos filmes de Ray.O subúrbio, nem rural nem citadino, era uma zona de estudo da moralidade convencional e das suas pequeníssimas transgressões. A convenção e a transgressão fazem aliás parte de um mesmo quadro mental, porque uma supõe a outra como travão ou superação imaginária.

Richard Ford escreveu que o Revolutionary Road tem uma dimensão satírica, mas com as décadas a sátira foi-se perdendo e só fica a visão francamente desencantada da «vida habitual» que é de todo o modo o esteio do romance. Querendo responder aos críticos que criticam a «crueldade» e o «moralismo» de Yates, Ford supõe a existência possível de um mundo diferente. Um mundo em que aquilo que fazemos corresponda àquilo que dizemos. Um mundo que saia do subúrbio como categoria mental.

É um optimismo que acho que o romance não permite de modo algum. Em Revolutionary Road, a única pessoa que faz o que diz e diz o que faz é um homem sem super-ego: um louco. À loucura da normalidade não temos a opor senão a própria loucura.

9/09/2009

Um bom burguês é fácil de encontrar














Frédéric (Bernard Verley) vai adiando como pode um inevitável caso extra-conjugal, declarando pomposamente que se opõe à poligamia (como se um adultério tivesse a gravidade de um duplo casamento). Uma sociedade poligâmica, diz, contentinho, é o triunfo da mentira e da escravatura das mulheres. Mas uma vez que admite, a custo, que é possível gostar de duas mulheres ao mesmo tempo, confessa que se vivesse numa sociedade poligâmica não teria objecções à poligamia. Mas como vive numa sociedade «monogâmica», a ideia não lhe agrada. Frédéric não segue a ética mas a convenção. Ele não quer ser um homem bom, quer apenas ser um bom burguês.

[L'amour l'après-midi, Eric Rohmer, 1972]

Excepto trânsito local

Quem vai de automóvel a minha casa talvez chegue a determinado cruzamento. Aí encontra um sinal que obriga a virar à esquerda, sendo que a minha casa fica para a direita. Debaixo do sinal há uma placa pequenina que diz «excepto trânsito local». Ou seja: embora seja obrigatório virar à esquerda, é permitido virar à direita. Depende de uma decisão individual. E mais não digo.

9/08/2009

Zangados estão os outros



ENTREVISTADORA: You want them to be angry?
JOHN OSBORNE: Why not?

Foder um jornalista

Indeed, his anti-poetic manner was a way of shocking. When a lover once complained to him that, for a poet, he was not very romantic, Auden replied: «If it's romance you're looking for, go fuck a journalist».

(James Fenton, sobre Auden, no Guardian)

O que temos de mais precioso

Há uns meses, esteve em Lisboa a célebre Schabühne de Berlim, com John Gabriel Borkman (1896), a penúltima peça de Ibsen, encenada por Thomas Ostermeier. O timing foi perfeito, uma vez que Borkman trata a crise do capitalismo (e especialmente dos bancos), que é hoje o tema principal da nossa vida colectiva. Mas essa leitura imediata será a mais produtiva?

John Gabriel Borkman é um banqueiro idealista e corrupto, sedento de ascensão social. Filho de um mineiro, quer «fazer cantar o ouro», quase como se fosse um projecto poético. Ele é um homem de negócios, um adepto do progresso, e justifica os seus delitos como meios eventualmente desonestos para atingir fins honestos. Ganancioso altruísta, quer ao mais tempo criar riqueza e enriquecer. Nesse sentido, Borkman é uma figura trágica do capitalismo, muito diferente do caricatural capitalista obeso, cúpido e mastigando charutos. Caído em desgraça, foi preso e agora vive no primeiro andar de sua casa, isolado de todos os outros.

Esta peça é também sobre aquilo a que alguém chamou a «bancarrota emocional». Borkman, tal como Solness de O Construtor Solness (1892) parece um auto-retrato de Ibsen, um homem ambicioso que revela uma frieza de coração. Não é só a culpa e o casamento estagnado, mas o próprio desejo desmedido de grandeza e a instrumentalização de terceiros.

Borkman perdeu a reputação e perdeu a alma. Ao ter abandonado Ella em favor de um casamento de conveniência, cometeu um crime mais grave do que qualquer falcatrua financeira. É por isso comovente quando ele reconheça à própria Ella: «Nem sempre a vida é o que temos de mais precioso».

9/07/2009

Teste com consulta

















Já adquirível naquela cadeia francesa.

Quinquenal como o Estaline

HELEN: But you want a baby, though, don’t you, Poppy? (…)
POPPY: Maybe. Who knows?
HELEN: At thirty-five, you’re considered a high-risk mum.
POPPY: Oh, give me a chance - I’ve just turned thirty!
HELEN: It’s only five years away. You’ve got to make plans.
POPPY: What, Five-Year Plan? Like Stalin?

[Caroline Martin e Sally Hawkins em Happy-Go-Lucky (2008), de Mike Leigh]

Diplomacia social

A verdade é que todos os Paveses em cinema são bons: Straub/Huillet, o Agosto de Jorge Silva Melo e o Antonioni (nunca vi Il Diavolo Sulle Colline de Cottafavi). Le Amiche (1955), adaptação da novela Tra Donne Sole, é Antonioni antes de se tornar poseur (e eu até aprecio esse Antonioni pretensioso). Um drama burguês filmado com elegância e contenção, mas com sangue nas veias. E com aquela alegria angustiada das cenas de grupo em que o cinema italiano é perito. As «três mulheres sós» (por feitio, acaso ou promiscuidade) circulam pela entediada burguesia turinense, numa indolência sempre a um passo da tragédia (e Pavese também é isso). Cleia, uma estilista que veio de Roma para Turim, percebe que a mudança de cidade trouxe também uma mudança ética. Cito de memória: «Em Roma, as mulheres querem gastar pouco e parecerem ricas; em Turim, gostam de gastar muito e parecer remediadas». E acrescenta, quase cínica: «Diplomacia social». Cansada dos jogos de amores turinenses, ela regressa a Roma, talvez apostada numa vida emocional em que passe por rica gastando pouco. Quem puder que atire a primeira pedra.

Varões de Plutarco

Sete sombras, o novo blogue de Pedro Lomba.

9/04/2009

Show me the way



Eid ma clack shaw / Zupoven del ba / Mertepy ven seinur / Cofally ragdah

(é a canção do ano, pois)

Os eleitos

Ela quer um «príncipe» (cito) mas não abdica de um sistema republicano. Acontece, minha querida, que os novos príncipes não são «escolhidos» por uma pessoa: são eleitos pelo maior número.

Governo Sombra

João Miguel Tavares evoca o membro do Presidente. Pedro Mexia lamenta o proxeneta de Tripoli. E Ricardo Aráujo Pereira ensina como lavar as mãos. É o regresso do Governo Sombra, superiormente conduzido pelo Engenheiro Carlos Vaz Marques. Amanhã, às 19h, na TSF, com repetição de madrugada e na manhã de sábado, e sempre disponível aqui.

9/03/2009

Estado civil


















Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) é uma adaptação livre do Platónov de Tchekhóv, com menos de metade da duração.

Nikita Mikhalkov acaba o filme num momento mais ou menos apaziguador, quando ainda faltava bastante para o fim da peça. Platónov, acossado e angustiado, corre pela datcha e pelos campos e gritar que já tem 35 anos e não fez nada na vida [como eu o compreendo]. Tenta suicidar-se, ou finge que se suicida, e é «salvo» pela sua apagada esposa, Sasha. Ela confessa-lhe a sua total devoção, e diz que «encontrarão pessoas que nos compreendam e perdoem». Ele aceita o consolo, desiste das outras mulheres e de todas as ambições, sai abraçado a ela.

O final da peça é bastante mais trágico. Mas será que Peça Inacabada tem um final feliz? Mikhalkov, ao terminar onde termina, sugere que um homem que alcance a estabilidade conjugal pode suportar uma vida medíocre. Se isso é a felicidade, estou muito bem com este estado civil.

A vida dos anjos

«Estou registado como Libertário. Gosto dessa filosofia. O Partido Libertário não conta e nem tem candidatos. Mas eu acredito que viveremos melhor se deixarmos as pessoas em paz, se desistirmos de arranjar maneiras de dirigir as vidas alheias. Talvez este modo de pensar seja pouco prático, ou obsoleto. Mas foi assim que eu fui educado».

Clint Eastwood, definindo a sua ideologia política. Tenho grande simpatia por uma filosofia que consista em «deixarmos as pessoas em paz». É mesmo a minha ambição: que me deixem em paz. E no entanto essa ideia é de facto pouco prática ou obsoleta. Vem nos Federalist Papers: «If men were angels, no government would be necessary. If angels were to govern men, neither external nor internal controls on government would be necessary». Infelizmente, o individualismo tem de ser temperado pelo pessimismo. E o pessimismo significa uma caterva de regras, códigos, restrições, procedimentos. Conseguir que nos deixem em paz e deixar em paz os outros torna-se por vezes difícil. Mas fácil é a vida dos anjos.

9/02/2009

O meu tipo


















Carla Bruni (...) vai também adicionar ao seu currículo uma participação num novo filme de Woody Allen, desafio lançado pelo realizador no passado mês de Junho. O filme só começará a ser rodado no Verão do próximo ano. A nova longa-metragem do realizador norte-americano será filmada em Paris. Quando foi à capital francesa apresentar o seu novo filme (...), Woody Allen não poupou elogios a Carla Bruni (...) «Estou certo de que seria maravilhosa. Tem carisma e já representou, pelo que não é desconhecida do público». No entanto, avisou que ainda não tem «uma história para ela neste momento».

(Público online, sublinhado meu).

Eis, pelas razões expostas, o meu tipo de homem. E o meu tipo de mulher.

Vigésima Primeira Emenda (1933)

Section 1. The eighteenth article of amendment to the Constitution of the United States is hereby repealed. [...]

Em 1933, o moralismo abstémio já estava em desuso, o mercado negro proliferava, tinha havido uma crise grave. E fez-se uma emenda para repelir outra emenda, uma curiosidade constitucional. Mas é também uma boa lição: nunca proibir actos privados. Eles voltam sempre.

Décima Oitava Emenda (1919)

Section 1. After one year from the ratification of this article the manufacture, sale, or transportation of intoxicating liquors within, the importation thereof into, or the exportation thereof from the United States and all territory subject to the jurisdiction thereof for beverage purposes is hereby prohibited. [...]

A Constituição Americana é muito justamente elogiada por se restringir ao essencial (tem apenas 7 artigos). Para não ferir a integralidade do texto original, outras matérias importantes foram sendo acrescentadas em emendas (27). Quase todas as emendas dizem respeito a temas fundamentais, como a proibição da escravatura, o que torna mais bizarra a existência de uma emenda sobre a proibição de «intoxicating liquors». Tanto mais que houve legislação ordinária dedicada ao assunto, o chamado Volstead Act. A constitucionalização do proibicionismo foi, num primeiro momento, uma vitória dos movimentos de temperança, que detestavam o álcool por razões morais. E foi, num segundo momento, a vitória do crime organizado. É sempre assim.

Recibos é que não tenho aqui à mão


















[para que não falte nada ao nosso «Casanova»]

9/01/2009

Somos uma granada

Portugal é uma granada, diz o taxista. Olhe que eu andei em minas e armadilhas, diz o taxista, e sei isso bem, isto é como as granadas e as explosões por simpatia, o senhor sabe o que são explosões por simpatia, se calhar não sabe, é quando um explosivo rebenta porque outro rebentou e aumentou a temperatura e as ondas de choque, está a ver, nós somos assim, explodimos por simpatia, somos uma grande granada.

Ao mais fraco dos dois

Numa cena da comédia Candida (1898), George Bernard Shaw põe a personagem principal a fazer uma escolha: fica com o marido, o sisudo sacerdote fabiano James Morell, ou com o jovem poeta Eugene Marchbanks?

Candida pergunta: «And pray, my lords and masters, what have you to offer for my choice? I am up for auction, it seems. What do you bid, James?».

Morell («com orgulhosa humildade») confessa: «I have nothing to offer you but my strength for your defence, my honesty of purpose for your surety, my ability and industry for your livelihood, and my authority and position for your dignity. That is all it becomes a man to offer to a woman».

Depois vem o arroubo lírico de Marchbanks.

E então Candida escolhe: «I give myself to the weaker of the two».

Shaw e as suas campanhas «progressistas» não me interessam nada, mas até um sarcasta de vez em quando é capaz de uma tirada destas: «I give myself to the weaker of the two».

Uma cena impossível na «vida real» (que é infalivelmente darwiniana) mas uma réplica teatral de génio.

La Noche de Ayer



Pobre da canção que não sobreviva a bigodes falsos, poncho e sombrero.

As pessoas nas fotos

Leonard explica a Sandra que as suas fotografias nunca mostram pessoas porque as pessoas entram nas fotos quando as vêem. Para quê oferecer um mundo feito em vez de receber mundos inesperados?

[Joaquin Phoenix e Vinessa Shaw, Two Lovers, 2008, de James Gray]

O futuro radioso

1. «Quem é o Pedro Mexia?»
2. «Convidem o Pedro Mexia».
3. «Convidem alguém do género Pedro Mexia».
4. «Convidem um Pedro Mexia mais novo».
5. «Quem é o Pedro Mexia?»

O meu futuro radioso, decalcado das «cinco etapas da vida de um actor», de Ricardo Montalbán.

Lei seca



Lei Seca é uma denominação popular da proibição oficial de fabricação, varejo, transporte, importação ou exportação de bebidas alcoólicas. A definição tornou-se famosa após a proibição ter sido adoptada nos Estados Unidos em 16 de Janeiro de 1919, quando foi ratificada pela 18ª Emenda à Constituição, entrando em vigor um ano depois, em 16 de Janeiro de 1920. O seu cumprimento foi amplamente burlado pelo contrabando e fabrico clandestino. A Lei Seca foi abolida em 5 de Dezembro de 1933, pela 21ª Emenda. Permaneceu activa por 13 anos, 11 meses e 24 dias.