11/30/2009

Tomé

Só quando tocar com o dedo na tua ferida e colocar a minha mão no teu lado.

Rododendros

Now count every rhododendron
In this cool mountain light
I've made more mistakes than that just tonight


(Jason Molina)

11/27/2009

Tigres da Malásia


















(...)

Tive, nem sei se ainda terei, algumas aventuras de Sandokan nas edições em papel barato e capa azul escura das Edições Romano Torres. Lembro-me de «Sandokan na Ilha do Bornéu», em que o corsário está atrás de um canhão em pose orgulhosa, de espada estendida. Embora tenha lido muito mais Verne do que Salgari, o imaginário da pirataria, que sempre foi dos meus preferidos, vem do novelista veronês. Sandokan, o príncipe malaio que se torna pirata e luta contra os ingleses e os holandeses, é a sua personagem mais conhecida, e tenho quase a certeza de que também li «Os Tigres de Mompracem» (1900), porque nunca esqueci esse título.

Muitos anos passados, voltei a «Il Corsaro Nero» / «O Corsário Negro» (1898), de que citei no começo um excerto [reed. Via Óptima, 2009]. Emilio Roccanera, Conde de Ventimiglia e Senhor de Valpenta, agora conhecido como Corsário Negro, quer vingar a morte dos seus irmãos, enforcados pelo governador de Maracaíbo. E em duzentas páginas rápidas e poderosas temos furacões, funerais em alto mar, abordagens com o convés pejado de cadáveres, manhãs esplêndidas em águas esmeralda, espadas cintilantes, barris de pólvora, saques que duram dias, tribos canibais, expedições na selva, uma luta feroz entre um jaguar e um jacaré. Reli o livro e revivi por completo o fascínio adolescente, que já tinha sido o fascínio adolescente do meu pai. «Quem manda aqui são os meus irmãos mortos» é a frase terrível que ecoa em O Corsário Negro, onde uma triste maldição paira sobre aquela camaradagem oriental. O tom é viril, desenvolto, sem nenhum didactismo e com um refrescante elogio do rebelde.

(...)


[no Público de amanhã]

Crédito

Em matéria de alegria, vivo a crédito. Dão-me crédito agora e eu gasto agora. Depois, quando não puder pagar o que devo, e nunca posso, paciência. Quando não posso pagar também não tenho nada a perder.

11/26/2009

Not I












«all part of the same . . . keep an eye on that too . . . corner of the eye . . . all that together . . . can't go on . . . God is love . . . she'll be purged . . . back in the field . . . morning sun . . . April . . . sink face down in the grass . . . nothing but the larks . . . so on . . . grabbing at the straw . . . straining to hear . . . the odd word . . . make some sense of it . . . whole body like gone . . . just the mouth . . . like maddened . . . and can't stop . . . no stopping it . . . something she– . . . something she had to– . . . what? . . who? . . no! . . she! . . »

[Beckett, Not I, 1972]

Ilusão real

Em semanas um bocadinho mais crentes, e esta é uma semana um bocadinho mais crente, acredito naquela espantosa tese hindu: o mundo nasceu como uma ilusão, mas Deus, compadecido das criaturas iludidas, fez com que o mundo se tornasse real.

Engana, o mundo



like memories of another life
is painted on her shirt in capitals
out on the free free way
there's only she and the they
represented by the lights


[Pixies, «Trompe Le Monde», do álbum homónimo, 1991]

11/25/2009

Almost blue

O que dá cabo de mim é aquele murmurado «Almost blue / It’s almost touching / It will almost do». Esse «quase» a que falta um golpe de asa. Esse «touching» que em inglês é adjectivo mas também sugere uma forma verbal. Quase tocante porque quase te toco, quase me tocas. Essa contradição: «almost do». Se «quase chega» é porque não chega, não é? O «quase» é melhor que o nada, não achas? Isto dá cabo de mim.

Acima de zero

Conheci mulheres que nasceram em iglus, mulheres educadas na neve, feitas de gelo, mulheres árcticas e glaciais. Por isso, quando aparece alguém com uma temperatura positiva, saio logo à rua com traje estival.

11/24/2009

Para as minhas editoras





[clicar para aumentar; dica da especialista em «tiras» Sam]

Da igualdade

Além da metafísica, conservo uma marca genética cristã: não aceito um inquestionável domínio do mais forte sobre o mais fraco. Não há regras «naturais» inevitáveis. A civilização contraria o que a natureza determina. Através da ética, por exemplo. E a minha ética é que os homens são desiguais mas têm igual dignidade. A dialéctica do senhor e do escravo pode ser muito inteligente e dar muita ponta, mas é intrinsecamente iníqua.

Darwin

Temia que Darwin fosse um ateu fanático ou um desvairado eugenista. Quando finalmente o li com atenção, percebi quão infundados eram tais receios. Darwin foi um humanista vitoriano, que descrevia e não prescrevia, e de quem aliás são conhecidas posições contra a escravatura, por exemplo. O abominável «darwinismo social» não é invenção nem culpa dele. Quanto à religião, não confundamos Darwin com Dawkins. Darwin escreveu na sua Autobiografia: «O mistério do início da todas as coisas é insolúvel para nós; e por mim contento-me em permanecer Agnóstico». Eu, que permaneço crente, concordo. O mistério é insolúvel. A humildade de dizer que é insolúvel já é muito.

Resposta à pergunta «o que é que lhe havemos de dar nos anos»

Amei

É um brasileirismo, «amei», uma facilidade da linguagem, como quem diz «adorei» em vez de «gostei»? É possível, mas é possível que seja o contrário. Que seja uma capacidade de entusiasmo, em ambiente tão hostil a entusiasmos, uma certa ilusão sentimental dita com confiança. Ela diz «amei» sem se importar com o policiamento linguístico. Diz e repete. Ela diz «amei» porque ama, de facto, e quando gosta refere-se, por aproximação, ao amor. É uma doce criatura inactual.

11/23/2009

O mundo sai dos eixos

Pode ser um gesto, meia frase, um assentimento. É sempre um acontecimento raro e clamoroso, daqueles que contrariam a lógica, desmentem a estatística, negam tendências, desfazem previsões. Pode ser um sinal mínimo, uma concordância, três palavras. Nesses momentos em que o mundo sai dos eixos é que sinto que o mundo vale a pena.

Aurélio Pereira (4)














Shu Qi nasceu em Taipé em 1976, numa família pobre. Aos 17 anos, mudou-se para Hong Kong, e apareceu em revistas para adultos e filmes softcore. Depois perceberam que também tinha outros talentos, e na última década trabalhou em dezenas de produções mainstream, categoria que vai de Jackie Chan a Hou Hsiao-Hsien (Millenium Mambo, Three Times). Entra no episódio de Fatih Akin em New York, I Love You, e vale o bilhete. Foi júri dos Festivais de Berlim e Cannes (doce vingança). Pequena, suave, exótica, tem uns lábios que justificam «a thousand reviews», como na canção de Cohen.

(#3)

Uma questão de drive

A minha actual heroína é aquela cidadã que foi apanhada trinta e oito vezes a conduzir sem carta de condução. Uma conduta censurável pela perigosidade mas admirável pela persistência. Acho que uma pessoa que é apanhada em falso tantas vezes e que continua merece algum respeito. Parece que a senhora nunca conseguiu tirar a carta, e por isso conduz ilegalmente há vinte e um anos. Há pouca gente no mundo que tenha tanta vontade de conduzir como ela, pouca gente que queira tanto uma coisa e que esteja disposta a pagar por isso. Vão dizer que é um caso patológico, mas já sabemos que dizem sempre isso.

11/20/2009

Comme un bourgeois


















Soyez réglé dans votre vie et ordinaire comme un bourgeois, afin d'être violent et original dans vos oeuvres. (Flaubert)

Ficção

Esta é a primeira vez que publico um livro de ficção. Passo a vida a dizer que nada do que escrevo é ficção, mas ninguém acredita. Temo que agora que digo que é ficção, ninguém acredite à mesma.

11/19/2009

Diz que é no fuaiê


















[Nada de Dois chega às livrarias amanhã e será lançado hoje, quinta-feira, às 19h, no foyer do Teatro Aberto, em Lisboa. Nuno Artur Silva apresenta, e haverá uma leitura por Joana Seixas e Albano Jerónimo]

11/18/2009

Desamigo

O New Oxford American Dictionary escolheu como palavra do ano «unfriend» (desamigar), que significa «retirar alguém de uma rede social da Internet, removendo o seu estatuto de “amigo”». Dizem que a nova palavra espelha novas «novas tendências sociais», mas não creio que seja o caso: há muito que precisávamos de uma palavra para o fim de uma amizade. Só temos verbos como «afastar» ou «zangar», mas às vezes desamigar pode ser uma decisão peremptória e pacífica. Eliminar um amigo como quem risca nomes numa lista de convidados. Claro que «amigo» aqui é um amigo entre aspas, mas tem de se começar por algum lado.

Anatomia



















Aragon, como se fosse um poeta medieval, passa do alto ao baixo e do baixo ao alto: da cona de Irene em 27 aos olhos de Elsa em 42.

Uma modesta proposta

O Rui Tavares propõe hoje, em registo satírico, o referendo ao casamento heterossexual. Pela minha parte, há muito que defendo, completamente a sério, uma outra medida: o casamento heterossexual devia estar sujeito a numerus clausus. Casavam umas quantas pessoas por ano, e apenas se superassem uma bateria de provas. Aquilo que se faz hoje com os casais desavindos devia fazer-se, a contrario, com os nubentes: várias reuniões em que se tentava convencê-los a não casar, atirando-lhes com tudo, tédio, flacidez, adultério, saudades da mamã, gostos cinéfilos ao sábado, boletim clínico, dívidas e hipotecas, impotência, peúgas sujas. Isto acompanhado de discursos catastrofistas, gráficos, estatísticas, vídeos, testemunhos. Só depois de o casal estar realmente ciente e determinado é que se dava acesso ao casamento civil. O actual regime de casamento a pedido é iníquo e deve ser revogado. Infelizmente, não vejo coragem política para esta medida de salvação nacional.

11/17/2009

Ninguém me encontra















1. I do live in a glass box. And I am on display for men to pay to look at me.

2. Hollywood is filled with women who have tried to cope. I like to study them. I like to see how they’ve succeeded. And how they’ve failed.

3. The reality is, I’m hidden amongst all the insanity. Nobody can find me.


[Megan Fox, num perfil publicado na revista do New York Times]

Jarvis Cocker

Terminado o casamento, eis o homem de meia-idade caído verticalmente no vício. A propósito do último disco, a imprensa inglesa falou em «filthy desperation of the male ego». Esse desespero javardo estava lá quando ele tinha vintes e era desconhecido, quando tinha 30 e ficou famoso, quando tinha 35 e se afundava, quando tinha 40 e estava casado, e agora aos 45 e de novo à solta. A haver fidelidade, que se seja fiel ao desespero.

11/16/2009

De homem para homem














Talvez, como sugeriu um amigo meu, seja preciso uma certa dose de «solidariedade masculina» para apreciar Os Sorrisos do Destino. O mais recente filme de Fernando Lopes é sobre um homem traído e magoado, e gera uma empatia natural entre os machos da espécie. Dá-se além do mais um caso embaraçoso: Lopes confessa que se trata de um episódio autobiográfico, e a ex-mulher do cineasta é uma figura pública. Podíamos esperar por isso um exercício de voyeurismo e ressentimento. Felizmente, não é nada disso. É um quase «divertimento», uma obra assumidamente «menor», mas a ligeireza do tom é muito preferível aos diálogos sisudos e ponderosos dos últimos dois filmes.

O protagonista é um homem «inactual», que detesta telemóveis e conduz um VW carocha. É um sentimental cool, que gosta de boleros e parece obcecado com a arrumação. Um dia, descobre uma mensagem amorosa no telemóvel da mulher, uma senhora «da cultura» um pouco enfadada. Conhece o amante dela, e os dois homens ficam amigos.

Os Sorrisos do Destino é «machista» porque tem um ponto de vista masculino? Sendo um filme confessional, não se vê como podia ter um ponto de vista feminino. É óbvio que simpatizamos mais com o marido enganado do que com a esposa, mas por exemplo o amante é um gajo porreiro, e o marido é um maniento.

O achado foi fazer deste filme uma comédia. Fazer com que a verdiana «força do destino» seja encarada com um sorriso. Daí todos aqueles gags (um duelo ensaiado ao espelho, o filho que anda sempre de patins, o amante que chama o cão cantando o Tristão e Isolda, o esparguete alla putanesca) que só por si cortam qualquer possibilidade de estarmos perante um «revenge movie». Se Fernando Lopes «ajusta contas» com alguém, é sobretudo consigo que ajusta contas, dando de si mesmo um retrato complacente mas cheio de pequenas fracturas, um homem totalmente adulto e no entanto desprotegido, infantil.

O que é mais inactual no protagonista do Os Sorrisos do Destino não é ele detestar telemóveis e computadores; o que isso revela é que ele despreza a comunicação imediata que multiplica as possibilidades e instabiliza as relações pessoais. Lopes não idealiza o casamento, mas acredita no casal. E por isso, septuagenário, não se conforma com o mercado da sexualidade, mais do que dos sentimentos (veja-se o prólogo, com a sexualidade hipermoderna de uma modelo fotográfica). Lopes, como o seu protagonista, é um romântico. Ou, como ele diz, um «etéreo-sexual». Leva daqui um abraço de homem para homem.

[na foto: Ana Isabel, a modelo do filme]

Perdido na tradução

O livro de Boris Vian Et on tuera tous les affreux chama-se em português Morte aos Feios. O livro de Albert Hirschman The Rhetoric of Reaction chama-se em português O Pensamento Conservador. Feio igual a horrível. Pensamento igual a retórica. Conservadorismo igual a reacção. Estou feito.

11/14/2009

Pretty persuasion



Dependendo da luz do dia ou da noite, a persuasão pode tornar-se dissuasão. Ou, por uma vez, vice-versa.

11/13/2009

Do quiz Que fonte é você

You Are Courier New. You have a deep appreciation for tradition and history. You don't eschew modernity, but you do have a deep reverence for the past. You are very literate. It's likely you enjoy writing and reading. Some people may feel you're a bit cold, but you just have high standards for who you hang out with.

11/12/2009

Discurso do método

Right, I want you to play that again...only this time make it faster, but slower.

[Martin Hannett, numa sessão de gravação, para os Joy Division]

11/11/2009

O meu melhor leitor

O meu melhor leitor é aquele cavalheiro que um dia me disse: «não me interessa nada a sua vida, mas gosto muito do que escreve».

Ultramar

E de repente deu consigo a pensar durante a conversa com ela: «Ah, se não fosse esta ferida que trouxe do Ultramar».

Amiguismo

Diz que o Público amanhã vem melhor.

Faz o meu género

Faço imediatamente cara de enjoo quando alguém usa a expressão «descansar a cabeça» a propósito de uma ida ao cinema. Quem quer descansar a cabeça deve dormir uma boa soneca.

Dito isto, nem só de Mizoguchi vive o homem, e o cinema de massas tem o seu encanto. Sobretudo o cinema de género, que se alimenta de pequenas variações sobre um código narrativo fixo.

Os géneros que vou seguindo com mais atenção são a comédia romântica e o terror. A comédia romântica é mainstream e «feminina», um género do qual quase toda gente gosta, com excepção de algum cinéfilo académico enconado («só se for um Lubitsch», diz, alisando o tabaco na mortalha). O terror é um «nicho», um género «desagradável» e «masculino», para miúdos e solteirões afásicos. Um é date movie e outro midnight movie. Mas em ambos há uma codificação extrema: existem apenas quatro ou cinco histórias de terror e ainda menos histórias de amor. E é divertido ver como cada cineasta entra nesse jogo, essa espécie de corrida de estafetas em que se pega num legado e se corre uns metros para o entregar ao seguinte.

Às vezes aparece um The Shining ou um When Harry Met Sally, mas é raro, muito raro. Em todo o caso, estamos sempre à espera de uma surpresa, enquanto vamos gozando o prazer antigo da repetição.

E gosto das ilusões sentimentais da comédia romântica e do catastrofismo sexual dos filmes de terror. Não convém descansar demasiado a cabeça nesses assuntos.

11/10/2009

A amizade é fodida

O arcebispo de Braga, falando das «interpretações egoístas do dom da sexualidade», criticou o seu exercício «meramente amistoso» ou «lúdico». A única novidade aqui é o «meramente amistoso». Não sei se D. Jorge Ortiga está a pensar nos «fuck buddies», conceito que talvez ainda não tenha chegado à arquidiocese de Braga; talvez seja a «amizade colorida» ou a «amizade com benefícios». É disso que se trata? Mas será o coito entre amigos de facto «amistoso»? Confesso que não imagino o que seja «sexo amistoso». O acto sexual pode ser muitas coisas, apaixonado, desastroso, lascivo, competitivo, aborrecido, perverso, pode até ser simples débito conjugal, mas é sempre absolutamente contrário a qualquer noção útil de amizade. É um acto violento por natureza, que embora possa ser praticado com amigos, é tudo menos amistoso. Se, por regra, os amigos se viessem, nenhuma amizade durava muito.

11/09/2009

História alternativa









O mundo pós-1948 em The Man in the High Castle (1962), de Philip K. Dick. Nesse romance, o Eixo ganhou a II Guerra Mundial. Porém, um sujeito escreve um romance no qual o Eixo perdeu a guerra. O livro é proibido pelas autoridades, mas circula clandestinamente.

Nunca acreditei no «fim da História». A História prova que quando alguém imagina uma boa história alternativa, é provável que um dia ela aconteça. Mesmo que dure pouco.

Derrube este muro

11/08/2009

Exit ghost

You can laugh
A spineless laugh
We hope your rules and wisdom choke you


[Radiohead]

Imelda Marcos

Há semanas, um tufão atingiu as Filipinas. Li notícias da tragédia, mas uma chamou-me a atenção: os jornais contavam que os funcionários do Museu do Sapato de Marikina tinham conseguido salvar oitocentos pares de sapatos doados por Imelda Marcos.

Era uma parte considerável da colecção pessoal da senhora, embora não fosse a colecção inteira. O número exacto de sapatos que a esposa do ex-ditador filipino abandonou em 1986, quando o regime caiu, tem sido discutido. 1220 pares ou 2700? Enfim, era muito sapato, sem esquecer 508 vestidos de noite e 900 e tal carteiras.

Imelda foi casada com um presidente autoritário e corrupto, que desbaratou ou saqueou milhões de dólares, aboliu a constituição, decretou a lei marcial, reprimiu a oposição, assassinou o seu principal adversário político. Mas a toda a gente sempre fez especial impressão os milhares de sapatos.

Num delicioso ensaio chamado «The Shoes of Imelda Marcos» (Time, 31 de Maio de 1986), Lance Morrow escreveu: «Se Imelda tinha uma colecção de 2700 pares de sapatos, não era porque (…) esperasse usá-los todos, (…) mas porque os 2700 pares lhe davam opções. Andava com passo mais leve com a noção dessa liberdade».

Curiosa essa obsessão pela «liberdade» e as «opções» na esposa de um tiranete. Há sempre quem tenha grande gula pelas coisas que negou aos outros.

Lance Morrow explica que os sapatos eram em Imelda um fetichismo infantil: «As crianças têm frequentemente ilusões de omnipotência, e talvez a megalomania dos adultos venha daí, de uma mistura sinistra das características infantis do jogo e do exibicionismo».

Uma colecção extravagante de sapatos é uma colecção extravagante de sapatos. Mas em Imelda Marcos é também a chave da sua perversidade e da perversidade de um regime. É bom que haja um museu que não nos deixe esquecer isso.

11/07/2009

His science will expose it

i

Adeleine Moffat

«Thou hast committed / Fornication: but that was in another country, / And besides, the wench is dead». Sempre me impressionou esta epígrafe: o pudico Eliot a citar o brutal Marlowe.

A citação vem da peça The Jew of Malta (1589/90), e antecede o poema «Portrait of a Lady» (publicado em livro em 1917).

Há um jogo nada evidente (ou demasiado evidente?) entre título e epígrafe. O título do poema remete, claro, para Henry James, ainda mais casto que Eliot, e exímio em «retratos de senhoras», incluindo o da pobre Isabel Archer. A epígrafe, que cola numa só frase o que no original é pergunta e resposta, refere-se a um diálogo entre um frade corrupto e um judeu vingativo.

O poema é o asfixiante monólogo de uma grã-fina neurasténica, pretensiosa, encafuada em queixumes, banalidades, floreados. Mas como é que aquela civilidade stressada, feita de chá e musiquetas, dá lugar a uma tal raiva do sujeito que a ouve?

O «Judeu de Malta» é um selvagem que rompeu as barreiras da repressão. E o burguês tem essa nostalgia, já não suporta o tédio e o falso sofrimento da burguesia. O burguês torna-se então selvagem. E é como se o homem que ouve placidamente a senhora já estivesse noutra vida, e aquela senhora, com quem ele talvez tenha «cometido fornicação», pertencesse a outra terra e a outro tempo. «Além disso, a puta já morreu». Morreu pelo menos metaforicamente no momento em que ele lhe chama puta ou pensa nela como tal.

Os biógrafos dizem que a «précieuse ridicule» vítima de tais rendilhadas ironias e irreprimíveis ganas é uma tal Adeleine Moffat, de Boston, anfitriã mundana de intelectuais. Adeleine Moffat? Que é que isso importa? A mais conhecida biografia de T.S. Eliot dedica a Adeleine Moffat uma única linha.

11/06/2009

O fascínio e a repulsa


















Há meses, escolhi para capa do meu último livro, que é uma espécie de autópsia de um vivo, uma ilustração do tratado de anatomia de Andreas Vesalius. Quase toda a gente já terá visto os seus impressionantes esqueletos e os seus homens de músculos à mostra. Tive várias reacções a essa capa, umas de repulsa e outras de fascínio. Achei justo. É de fascínio e repulsa que falamos quando falamos de um corpo humano. E Vesalius é um herói do corpo humano. (...)

Conhecemos aquele desenho de Leonardo com o homem como medida de todas as coisas. Vesalius levou essa ideia à letra: tudo para ele estava ligado à estrutura e às funções do corpo humano. Essa foi a sua grande obsessão, a mesma que o levou, com apenas 28 anos, a contestar o clássico dos clássicos da Anatomia, para escândalo geral. Não só ele não aceitava que a ciência ficasse eternamente presa à sabedoria dos antigos, como também não admitia que se pudesse estudar o corpo humano sem ser através do próprio corpo humano. Diz mesmo, numa frase mais exaltada, que o que então se ensinava nas universidades podia ser explicado por qualquer talhante. (...)


[no Público de amanhã]

Une femme douce


















Em Une Femme Douce, adaptação de um conto de Dostoievski, há de facto uma «mulher doce» [noutras traduções: «uma criatura gentil»]. Sendo «doce», como as mulheres supostamente são (último avistamento: Rússia, 1876) ela apesar disso aponta uma pistola à cabeça do marido e acaba por saltar duma janela. Ela é doce mas só se exprime através da violência. A sua violência é que é doce.

11/05/2009

E agora um número de variedades

Fica a intenção

Gosto daquelas mensagens de telemóvel inaudíveis, cheias de estática ou ruído. A pessoa lá disse o que tinha a dizer. Nós não ouvimos nadinha. Mas ficou a intenção.

Traz um amigo

Recebo uma mensagem que diz: «não posso, tenho Krav Maga». Não faço a mais pequena ideia do que seja «Krav Maga». Googlo e aparece isto.

Biblioteca fútil

Encontro um caderninho no qual anotei centenas de mensagens de telemóvel. Arrumo na estante da ficção.

Louvre

Em casa com uma bela gripe B, leio Lowell, nomeadamente os poemas conjugais em que ele usa cartas de uma das ex-mulheres, Elizabeth. Com esse estratagema, o famoso confessionalismo de Lowell torna-se um teatro, mas um teatro questionável, em que a outra parte está condenada a aparecer apenas citada, repetindo estaticamente as coisas que escreveu um dia. Legalmente, as cartas pertencem ao destinatário, que pode fazer delas o que bem entender, mas eticamente é censurável a revelação da vida íntima de terceiros. Nos poemas conjugais, Lowell faz dessas cartas uma forma de ventriloquismo. E muitos dos seus leitores não conhecem só o bonecreiro: conhecem os bonecos. Alguém escreveu que «criticism of Lowell’s work must, of course, eventually name names», até porque Jean Stafford e Elizabeth Hardwick eram figuras públicas, e para mais escritoras, e além disso escreveram mais ou menos a sua versão da história [Jean até tem um conto sobre o acidente de automóvel que eles tiveram quando Lowell, bêbedo, ia a conduzir, episódio especialmente kinky para mim por razões que não vos dizem respeito]. E no entanto, o que é isso interessa aos poemas enquanto poemas? Acho que é preciso lê-los pelo que são, e não pelo modo como foram feitos. Também não andamos pelo Louvre a pensar que isto e aquilo foram peças pilhadas pelos exércitos napoleónicos. É a colecção do museu, isso é que importa. As peças têm uma história, mas acima de tudo existem, valem pelo que são, valem pelo que valem.

Obras completas

Provas de contacto

Os fotógrafos tiram centenas de fotografias e às vezes só aproveitam uma. Eu, de quase 37 anos de vida, escrevo apenas sobre vinte e tal meses. Não são tempos «bons» (em geral foram tempos péssimos), são simplesmente os únicos em que estive vivo.

11/04/2009

O escrutínio do instinto

Quando chegou o momento do voto, todos decidiram em representação dos seus instintos, como se o instinto fosse o eleitorado ao qual é preciso depois prestar contas. Bola branca das mulheres, movidas pela piedade e a ilusão. Bola preta dos homens, em função de suspeitas e inveja. Bola preta dos homossexuais, por desinteresse estético. Então, a escrutinadora anunciou os resultados, elogiou a «elevação democrática» de todos e foi para casa foder o seu eleitorado.

Tantas quantas

Bukowski tem um divertido poema sobre o facto de o seu número vir na lista telefónica. Conta que recebe com frequência chamadas de admiradores, a quem pede cerveja, e de admiradoras, com quem tenta (e às vezes consegue) ir para a cama. E diz que «para um homem de 55 anos que deu a primeira queca / aos 23 / e poucas mais deu até aos 50 / acho que devia continuar na lista / da Pacific Telephone / até ter dado tantas quantas / o homem médio».

11/03/2009

Aurélio Pereira (3)

















Lake Bell nasceu em Nova Iorque em 1979, de pai judeu. Estudou nos Estados Unidos e em Londres, cidade onde começou a fazer teatro, incluindo, gulp, a Gaivota de Tchekhov. Entrou em várias séries televisivas, mas tornou-se conhecida com The Practice e o bestial Boston Legal, onde esteve até 2006 a fazer de estagiária, dignificando essa classe tão desacreditada. Ainda não entrou em nenhum filme de jeito, com excepção do mediano Pride and Glory, mas vai entrar. Tem olhos verdes e um sinalzinho no lábio. É solteira ou assim.

(#2)

Tarde demais

Als je een speler ziet sprinten, is hij te laat vertrokken.
«Se vês um jogador a começar a correr é porque ele partiu tarde demais».
(Johan Cruyff)

Sem data

Um tédio, uma epifania, uma hesitação, um medo, uma comédia coreográfica, uma oportunidade, um sinal, uma aproximação, um deslumbre, uma ambiguidade, um recuo, um desencontro, uma espera, uma ronda patética, uma desistência, uma chuvada. Há momentos assim, em que se sente o gosto ácido da juventude, e depois se percebe que é apenas uma nostalgia, porque a juventude acabou, e não se podem inventar súbitas aparições da juventude. Não são oportunidades perdidas, são ilusões trágicas.

[sem data, num caderno]

O Reino dos Ceús

De Alda Merini (1931-2009) só conheço um livro, mas que livro: La Terra Santa (1984). É uma selecção de quarenta poemas escritos nos anos em que Merini esteve várias vezes internada por causa da sua esquizofrenia. De Artaud aos «confessionais» americanos, dos nossos Ângelo de Lima e António Gancho aos Poemas del Manicomio de Mondragon de Leopoldo Maria Panero, o manicómio sempre foi uma experiência humana dos limites, naturalmente gémea da experiência poética. Os poemas de Merini nessa colectânea [traduzida para português por Clara Rowland, Cotovia, 2004] situam-na numa linha de continuidade da poesia órfica italiana, em versão patológica, mas com uma linguagem mais escolhida e esquiva, mais Montale que Campana. Os quarenta poemas são inexcedíveis na descrição da degradação física e mental como aventura espiritual, e tomam de empréstimo a geografia bíblica, como se o manicómio fosse uma versão perversa do jardim das delícias ou do monte das oliveiras. Um dos mais impressionantes poemas descreve precisamente os doentes no jardim do manicómio, multidão mansa, pensativa, festiva, alheada, peripatética. E depois o poema passa para a primeira pessoa do plural, porque quem escreve é um dos doentes, e acaba com em terrível chave bíblica: «Então ouvimos os sermões, / multiplicámos os peixes, / ali, junto ao Jordão, / mas Cristo não estava: / do mundo nos extirpara / como a vis ervas daninhas». Quando esperávamos que dos loucos fosse o Reino dos Céus, nada disso: os loucos amontoam-se como fiéis galileus, fazem de figurantes nos milagres previstos, tudo isso, mas, revelação terrível, «Cristo não estava». E embora ele não estivesse, na verdade éramos nós quem não estava, tínhamos sido aniquilados pela sua ausência, ou pela sua recusa: «dal mondo ci aveva divelti / como erbaccia obbrobriosa», extirpados como vis ervas daninhas.

11/02/2009

Uma estátua



He stood like a statue
As he was beaten across the face
With a horse whip
Where the wounds already exist
A well-oiled rifle
And never lonely, Marlon JD
If you want to count down, countdown
Give him some dignity


[Manic Street Preachers, «Marlon JD», álbum Journal for Plague Lovers, 2009, com várias referências a Reflections in a Golden Eye, 1967, de Huston / McCullers)

Mediterrâneo

Quando nos conhecemos ela andava a estudar o Mediterrâneo de Braudel, acho que em fotocópias, porque eu tinha um exemplar e já não tenho, devo ter-lhe dado o meu, agora comprei-o de novo, em francês, e dou com esta passagem: «Le but de ce livre, c’est de montrer que ces expériences et ces réussites ne se comprennent que prises dans leur ensemble; plus encore qu’elles sont à rapprocher les unes des autres, que la lumière du présent leur convient très souvent, que c’est a partir de ce qu’on voit aujourd’hui que l’on juge, que l’on comprend hier – et réciproquement». É esta luz recíproca, esta justiça que se contagia, este plano de conjunto, que eu um dia serei capaz de compreender melhor, como não compreendo ainda nem compreendia nesse dia em ela deixou no meu primeiro computador o esboço de uma ficha de leitura.

Qual metade?



«People said that you were virtually dead / And they were so wrong». Alguém terá dito isso nalgum momento? Morta em que sentido? Há lá bicho da terra mais resistente? «Praticamente» morta porque «morta para mim»? Que precipitação, que melodrama. As pessoas que tivessem dito tal coisa estavam muito enganadas. Por outro lado, é verdade que «People said that you were easily led / And they were half-right». Mas qual metade?

[The Smiths, «Reel Around the Fountain», álbum The Smiths, 1984]

Assim e assado

Numa daquelas mensagens crípticas ou distorcidas tantas vezes inscritas nos discos dos The Smiths (neste caso no single Panic, Julho de 1986), aparece isto: «I dreamt about stew last night». É uma brincadeira com as frequentes «misheard lyrics», que às vezes dão resultados fabulosos; neste caso trata-se de uma voluntária corruptela de um verso da canção «Reel Around the Fountain»: «I dreamt about you last night». É um daqueles versos assumidamente lamechas de Morrissey (verso seguinte: «and I fell out of bed twice»), e que por isso sofre esta redução fonética do sublime adolescente ao grotescamente prosaico. Já não «sonhei contigo ontem à noite» mas «sonhei com guisado ontem à noite». Em português, curiosamente, também usamos essa palavra para menosprezar um raciocínio que não nos interessa: assim e assado, cosido e guisado.

Resquícios

Uma destas noites sonhei com a bailarina. Lembrei-me disso na manhã seguinte, raramente me lembro bem dos sonhos, mas entretanto desvaneceu-se até essa vaga recordação. Sei que não acordei com angústia nem nostalgia, não havia ali o fantasma de nenhuma associação ou símbolo. Sonhei com ela como se sonha com um resquício diurno. Andamos de metropolitano e depois sonhamos com uma carruagem de metro. Não é nada, nada mais que isso, é só uma imagem que ficou. Da bailarina e das outras mulheres que amei, ficou apenas um resquício diurno. Nem sei se é bom se triste.

11/01/2009

António Sérgio 1950-2009



O pop/rock salvou-me a vida. É um tumultuoso evangelho que fui decifrando ao longo dos anos através da Rolling Stone, do New Musical Express, da Mojo, da Q, da Uncut, da Paste, da Pitchfork, da PopMatters. E de Lester Bangs, Greil Marcus, Simon Reynolds, João Lisboa. E de António Sérgio. Eu fui e sou um sergiano, como se dizia antigamente dos adeptos do seu homónimo. Sérgio era o homem que de voz gravíssima passava os discos mais espantosos à hora do lobo na Rádio Comercial, depois na XFM e Radar. O John Peel português, que nos trazia tudo o que escapava aos holofotes nas décadas de 1980/1990. Nos meus tempos da faculdade, sobretudo em época de exames, ouvia sempre o programa dele, à noitinha, anotava nomes, entusiasmava-me com uma linha de baixo ou um refrão impiedoso. Gostava da paixão sereníssima daquela voz, daquela selecção irrepreensível, emocionava-me e aprendia. Recentemente encontrava-o às vezes no Snob, ao balcão, e por timidez não lhe agradecia, nunca lhe agradeci, e agora é tarde, ou talvez não seja.

Não podes desperdiçar essa merda

MAN: (...) I don't know how to articulate it, but it’s there… some hazy flash. This burst of hurt that I’ve always wanted to get to the bottom of… That’s the deal when you’re a writer, I guess. You just can’t let shit go! You gotta turn it over and study it and poke it and, you know…

TYLER: …sell it?


[Neil LaBute, Some Girl(s), 2005. Rapariga(s) está em cena no Teatro da Comuna, numa encenação de Almeno Gonçalves; continuo a gostar bastante mais de LaBute lido do que encenado, mas a vitalidade de Marta Melro vale a ida]