12/31/2009

2009: Discos, filmes, livros














Bill Callahan, Sometimes I Wish We Were An Eagle
The Dead Weather, Horehound
Magnolia Electric Co., Josephine
Manic Street Preachers, Journal for Plague Lovers
Noah and the Whale, The First Days of Spring
The Pains of Being Pure at Heart, The Pains of Being Pure at Heart
PJ Harvey e John Parish, A Woman a Man Walked By
The xx, xx
Yeah Yeah Yeahs, It's Blitz!

(in progress)













Andando (Aruitemo aruitemo), Hirokazu Koreeda
Deixa-me Entrar (Låt den rätte komma in), Tomas Alfredson
Depois das Aulas (Afterschool), Antonio Campos
Um Dia de Cada Vez (Happy-Go-Lucky), Mike Leigh
Duplo Amor (Two Lovers), James Gray
Gran Torino, Clint Eastwood
Inimigos Públicos (Public Enemies), Michael Mann
A Mulher sem Cabeça (La Mujer sin Cabeza), Lucrecia Martel
Ne Change Rien, Pedro Costa
Sacanas sem Lei (Inglourious Basterds), Quentin Tarantino














Alex Ross, O Resto é Ruído. À Escuta do Século XX
Casa das Letras
(trad. Mário César d'Abreu)

António Osório, A Luz Fraterna - Poesia Reunida
Assírio & Alvim

Céline, Norte
Ulisseia
(trad. Clara Alvarez)

Cioran, Silogismos da Amargura
Letra Livre
(trad. Manuel de Freitas)

Ernesto Sabato, O Túnel
Relógio d'Água
(trad. Francisco Vale)

Evelyn Waugh, Corpos Vis
Relógio D'Água
(trad. Miguel Serras Pereira)

Giani Stuparich, A Ilha
Ahab
(trad. Margarida Periquito)

Guillermo Cabrera Infante, A Ninfa Inconstante
Quetzal
(trad. Salvato Telles de Menezes)

Herberto Helder, Ofício Cantante - Poesia Completa
Assírio & Alvim

John Cheever, Contos Completos I
Sextante
(trad. José Lima)

Nuno Bragança, Obra Completa (1969-1985)
Dom Quixote

Nuno Rocha Morais, Últimos Poemas
Quasi

Ödön von Horváth, Juventude sem Deus
Via Occidentalis
(trad. Miguel Oliveira)

Robert Musil, O Homem Sem Qualidades – Volume III
Dom Quixote
(trad. João Barrento)

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia
Edições 70
(trad. Vitor Guerreiro)

Roberto Bolaño, 2666
Quetzal
(trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra)

Rogério Casanova, Pastoral Portuguesa
Quetzal

Rui Ramos (org.) História de Portugal
A Esfera dos Livros

Umberto Eco, A Vertigem das Listas
Difel
(trad. Virgílio Tenreiro Viseu)

Zbigniew Herbert, Escolhido pelas Estrelas
Assírio & Alvim
(trad. Jorge Sousa Braga)

(esta lista contou para as escolhas do ano do Ípsilon)

12/29/2009

Vic Chesnutt 1964-2009

Vic Chesnutt nasceu em 1964. Aos 18 anos, sofreu um acidente de viação que o deixou parcialmente imobilizado e definitivamente preso a uma cadeira de rodas. Gravou um punhado de discos de folk «assombrada, divertida, comovente». Morreu aos 45, no dia de Natal.

Aqui ficam três canções do magnífico West of Rome (1991): «Latent/Blatant», «Sponge» e «Panic Pure» (ao vivo, com Kristin Hersh).





12/28/2009

Graça

We're getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living

Daniel's saving Grace
She's out in deep water
Hope he's a good swimmer

Daniel plays his ace
Deep inside his temple
He knows how to serve her

We're getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living




(este vídeo é uma resposta a este)

Os meus mortos de 2009

Poetas: o ultimo dos «confessionais», WD Snodgrass, e um dos grandes sul-americanos, Mario Benedetti, além dos ingleses Mick Imlah e UA Fanthorpe. Também da literatura: o genial JG Ballard, Jonh Updike (que ensaísta), Milorad Pavic, James Purdy, o crítico Richard Poirier. Do cinema: Jonh Hughes (ah, a adolescência), o sempre confiável Karl Malden, Jennifer Jones (lust in the dust), a demasiado jovem Britanny Murphy, o argumentista Tullio Pinelli (I Vitelloni, La Strada, La Dolce Vita, 8 ½). E, em memória da minha memória infantil, Vasco Granja. Da música: o radialista António Sérgio e o songwriter Vic Chesnutt. Do pensamento religioso: o ortodoxo Richard John Neuhaus e o heterodoxo Edward Schillebeeckx. Das ideias: o sábio Claude Lévi Strauss, Leszek Kołakowski (leiam o estudo dele sobre o comunismo) e o liberal Ralf Dahrendorf.

A noite escura

Don't be deceived, no land in sight
We're all adrift in this dark night
We float on seas of disbelief
While singing songs of pain relief

Shake my body - release my soul
Punish my senses - lose control
This body's young but my spirit's old
Scatter my ashes and let
these feelings grow




(escolhi, de propósito, as imagens com pior definição)

A lei

Lamento, mas se quer a minha opinião sincera, caro amigo, leia por favor o artigo 190º do Código Penal, que é claríssimo: «1. Quem, sem consentimento, se introduzir na habitação de outra pessoa ou nela permanecer depois de intimado a retirar-se é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 240 dias». Idem o número 2 do mesmo artigo: «Na mesma pena incorre quem, com intenção de perturbar a vida privada, a paz e o sossego de outra pessoa, telefonar para a sua habitação». Não me peça para contestar isto, pois isto é incontestável, e você já admitiu a culpa. No que me diz respeito, caro amigo, prisão de 1 ano e muita de 240 dias até me parece pouco. Desculpe a franqueza. Lamento não o poder ajudar, mas a lei é a lei.

12/23/2009

Nenhuma coisa senão o amor

Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.

[Santo Agostinho]

A história das lágrimas



Quem escreverá a história das lágrimas?, perguntava Barthes, e podemos responder: Jesper Just, por exemplo.

Já tinha lido referências aliciantes ao trabalho de Just (n. 1974), e por um triz falhei uma exposição em Londres. Depois, encontrei alguns vídeos no YouTube. E agora vi finalmente ao vivo, na Gulbenkian, uma exposição individual do dinamarquês. São vídeos curtos, muitas vezes com homens a chorar. Os meus preferidos são No Man is a Island II (2004) e Something to Love (2005).

No primeiro, Just escolhe um típico ambiente masculino, um bar de solteiros, que filma em registo estilizado e com um grande investimento naquilo que em cinema se chama «direcção artística». No microcosmos acolhedor mas triste do bar, cheio de homens de meia-idade calados, de repente um rapaz começa a cantar «Crying», de Roy Orbison, e aos poucos todos os homens se levantam e o acompanham, emocionados.

No outro vídeo existe, como em tantos trabalhos de Just, uma relação ambígua entre dois homens (uma relação filial? edipiana? erótica?), às voltas de carro numa garagem desolada. Depois, o rapaz vai ter com uma mulher loira, e o par beija-se, de pé num chão giratório, rodopiando com uma música instrumental quase infantil. E do lado de fora fica o homem mais velho, que os espreita como se aquilo um peep-show ou uma caixinha de música. O homem mais velho chora.

Essa capacidade de escrever a história das lágrimas é o que me toca em Jesper Just. Ele destrói a ideia tenebrosa da «masculinidade» e põe em cena homens a transbordar de emoções (medo, amor, desesperança, culpa, ânsia) mas inibidos. A inibição dos sentimentos «típica» do homem nórdico, mas também a repressão exigida pela da «masculinidade» e a sua representação pictórica. Os homens de Just estão em silêncio mas vivem desejosos de quebrar o silêncio, seja de modo absurdo e divertido, seja de modo visceral e pungente. Há um esboço narrativo nos vídeos de Just mas não há psicologia; ou antes: há uma psicologia nunca explicitada, em que nos projectamos e criamos sentidos.

É um belo projecto: fazer dos nossos silêncios e medos uma passagem da indecisão para uma espécie de decisão. Primeiro calamos, depois cantamos e dançamos e choramos.

12/22/2009

Não me esquecerei da tua palavra












Na noite de 23 de Novembro de 1654, o filósofo Blaise Pascal teve uma experiência mística. De imediato, tomou nota de algumas frases exaltadas e exaltantes. E acrescentou uma citação do salmo 119: «não me esquecerei da tua palavra». Depois, coseu essa nota no forro do seu casaco. Ao longo dos anos, sempre que mudava de casaco cosia de novo o papel, já amarrotado. Blaise Pascal nunca esqueceu aquelas palavras.

12/21/2009

A vida às voltas



In the tree-lined cities and forgotten fields
Some are born too pretty, some are born too real
Some to death-wish pity, while the selfish steal some ground

It's all just hunchbacked plans too stumped to feel
As the rise of man names his price to deal
It's «look ma, no hands» on the steering wheel, going round
Goes round, goes round, goes round, slows down

Some are early bloom, some are made to wait
Some arrive too soon, some leave too late
Some think the moon can navigate their life round
Life round, life round, life round, lives round


[Echo and the Bunnymen, «Forgotten Fields», álbum The Fountain, 2009]

12/19/2009

O sismo de 2009

Era 1h37m quando senti um pequeno estremeção, que não identifiquei logo, talvez alguma colisão lá fora. Ao segundo movimento, os móveis tremeram, o chão tremeu, levantei-me da cadeira e tive medo. Era, sem dúvida, um sismo. Houve talvez três réplicas, mais ligeiras, e depois passou.

O último sismo desta magnitude sentido em Portugal (este foi de grau 5.7) aconteceu três anos antes de eu nascer; vivi por isso agora o meu primeiro terramoto, ainda que rápido e sem estragos. O deslizamento longínquo e invisível das placas que torna o nosso mundo instável e perigoso.

E sei em quem pensei de imediato quando o chão tremeu. Em quem fez com que o meu chão tremesse.

Noli me tangere


















[Pontormo, Noli me tangere, 1531]

12/18/2009

A aposta

Na Idade Média o verde era considerado uma cor diabólica. Mas ao longo dos séculos ganhou outro tipo de associações: é a cor da natureza, da juventude, da permissão. A antiga ideia maléfica transformou-se em algo diferente: o verde representa o destino e o acaso, a fortuna e o azar. É a cor do dinheiro mas sobretudo a cor do jogo. É a cor da esperança porque é a cor da aposta.



















[Mark Rothko, Green, blue, green on blue, 1968]

12/17/2009

Bein' green



It's not that easy being green
Having to spend each day the color of the leaves
When I think it could be nicer being red, or yellow or gold
Or something much more colorful like that

It's not that easy being green
It seems you blend in with so many other ordinary things
And people tend to pass you over 'cause you're
Not standing out like flashy sparkles in the water
Or stars in the sky

But green's the color of Spring
And green can be cool and friendly-like
And green can be big like an ocean, or important
Like a mountain, or tall like a tree

When green is all there is to be
It could make you wonder why, but why wonder why
Wonder, I am green and it'll do fine, it's beautiful
And I think it's what I want to be

12/16/2009

Blue & green













Em 1904, Picasso passou do período azul (sombrio) ao rosa (alegre). Também já vivi o meu período azul. Tenho agora esperança no verde.

12/15/2009

Clap your hands say yeah

«Nos semáforos da Rua de Santa Catarina»

Ao menos
os teus olhos permanecem
verdes todo o ano.


[Jorge Sousa Braga]

In my beginning

Quando Eliot escreve «no meu princípio está o meu fim», há, claro, um jogo com outro verso do mesmo poema: «no meu fim está o meu princípio»; mas creio que existe nisso algo mais que uma alusão à circularidade do tempo. «Fim» é tanto «desfecho» como «desígnio»; neste segundo sentido, «no meu princípio está o meu fim» significa que o meu começo contém o meu desígnio. E mais: que é logo no meu começo que o meu desígnio se revela. É nesse sentido que «East Coker», grande poema metafísico, é também um grande poema de amor.

[East Coker, de T.S. Eliot]

12/14/2009

A decadência nacional


















Os media estão cheios de «especialistas» que anunciam o apocalipse. Sou demasiado céptico para ser catastrofista, mas há coisas que fazem pensar. Por exemplo este grosso volume chamado Poemas Portugueses (org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, 2009). É uma obra de referência que reúne 267 poetas portugueses, da Idade Média à actualidade. No índice, vemos que a poesia portuguesa aqui antologiada começa com os trovadores e termina em Pedro Mexia. Leram bem: dos trovadores a Pedro Mexia. Eis um caso irrefutável de decadência nacional.

12/13/2009

Aspectos do mito (2)

«É nada e é tudo», diz ela, ecoando a famosa definição de «mito».

Aspectos do mito

Leio o Journal des Indes de Eliade. É um texto bem mais fascinante do que o Diário Português, por mais curiosidade que este último tenha para nós. O diário indiano, de 1929-31, descreve o país onde o jovem Eliade prosseguia os seus estudos, retrata uma civilização desconhecida e desvenda os amores locais do intelectual romeno. Essa dimensão tem para mim um interesse especial. Eliade foi um dos grandes mestres da História das Religiões; e eu não consigo compreender um conhecimento do fenómeno religioso que esteja desligado do interesse pelo feminino. Depois de ter lido as confissões amorosas de Eliade, acredito ainda mais nos seus escritos sobre religião.

Uma luz que nunca



[«There Is a Light That Never Goes Out», realizado por Derek Jarman, 1986]

Ele abandona os hábitos que dantes tinha

«Foi acontecendo aos poucos. E eu acabei por exercer algum poder sobre ele. Ele abandonou os hábitos que dantes tinha. Não porque eu lhe pedisse. Mas ele percebeu que eu não gostava. E então parou com aquilo», disse ela, e era a pura verdade.

Gostei de tudo

Opening night

You were one, you knew you were one
and you slipped right through my fingers
No not literally, but metaphorically
and now you're all I see as the light fades


[Morrissey]

12/11/2009

Os dois corpos de Van Dyck
















Carlos ficou impressionado com a glória que Ticiano emprestou aos Habsburgos. E quis alguém da mesma grandeza que o imortalizasse. Alguém que celebrasse na tela a monarquia por direito divino. Esse homem foi Antoon van Dyck, jovem artista nascido em Antuérpia e que trabalhava no estúdio de Rubens.

(...)

Uma das grandes invenções de Van Dyck é o duplo retrato, com dois homens, amigos ou aliados, estáticos na sua aliança que na tela ficou perpétua. Num desses duplos retratos está o próprio Van Dyck com o amigo e patrono Endymion Porter (1633). Um cavalheiro de meia-idade, corpulento e vivaz, e outro sujeito mais novo, o próprio artista, magro e esquivo, ambos serenos e orgulhosos da sua amizade. É um dos auto-retratos mais comoventes que conheço.

Os retratos femininos são em geral menos interessantes, com uma excepção: Margaret Lemon, a tempestuosa amante de Van Dyck. Ela surge em várias situações alegóricas e mitológicas, e num quadro está de camisa de dormir arregaçada que destapa com alegre despudor a brancura carnal de um braço. E também há um pequeno desenho onde ela aparece a dormir, cabeça caída e boca carnuda entreaberta. No meio da acalmia aristocrática em véspera de tempestade, gostei do pequeno tumulto que Margaret Lemon causava naquela exposição. Entre elegância e autoridade, um rasgo de paixão caótica. Foi como se tivesse visto os dois corpos de Van Dyck.


[no Público de amanhã]

Les enfants du paradis

Vede que não há neles malícia, menos ainda pecado. Vêem-se e é como se já se conhecessem, como se fosse uma continuação, um estado antigo mas inicial, secretamente solene, têm gestos de ternura disfarçada, uma apreensão feita de respeito, uma atenta e doce naturalidade, estão bem um com o outro, é isso, bem um com o outro, talvez não sejam já crianças, talvez não seja ainda o paraíso, mas ali, frente a frente, confundem os olhos e quase acreditam.

12/10/2009

Gostei do título

12/09/2009

Um despejo quieto e vergonhoso

As pessoas não lêem Camões. Se as pessoas lessem Camões, saberiam o que é «um despejo quieto e vergonhoso». Talvez aprendessem que despejo não é sucata, que quieto não é imperativo e que vergonhoso não é escandaloso. Um despejo quieto e vergonhoso: a tua ousadia tímida e tranquila.

12/08/2009

Tentações

Ninguém troca o bem que tem pelo bem que imagina. As tentações são um tempero, mas não são um alimento.

12/07/2009

Nas tuas mãos

Hoje sou
uma pequena coisa azul
um berlinde
ou um olho

Joelhos contra a boca
sou um círculo perfeito
sempre que te vejo

Sou um calafrio na tua pele
és um reflexo ideal
sou um objecto no teu bolso
estou perdido entre os teus dedos

Estou a cair das escadas
estou aos saltos nos passeios
atiram-me contra o céu

Estou a chover aos pedaços
estou disperso como a luz
disperso como a luz
disperso como a luz

Hoje sou
uma pequena coisa azul
feita de porcelana
feita de vidro

Sou frio e liso e curioso
nem hesito
ando às voltas nas tuas mãos
às voltas nas tuas mãos
pequena coisa azul


[«Small Blue Thing», de Suzanne Vega, versão PM]

12/05/2009

37

On n'est pas sérieux quand on a trente-sept ans.

12/04/2009

O apicultor


















«O Apicultor» passou há uns anos na televisão e nunca mais me esqueci. Revi-o há dias, e confirmei porque me impressionou tanto: é um filme onde tudo já está decidido na primeira cena, e onde o que se segue é uma espécie de longo epílogo. Um filme em forma de epílogo, uma ideia brilhante e tristíssima.

«O Melissokomos» (1986) é o sonoro título deste filme do grego Theo Angelopoulos. Na versão italiana que vi agora, mais curta e bastante escura, senti falta da melodiosa impenetrabilidade da língua helénica, mas notei curiosas afinidades meridionais. O melissokomos / O Apicultor tem dois italianos, e que italianos: Marcello Mastroianni é o protagonista, e Tonino Guerra um dos argumentistas. Mastroianni e Guerra são génios naquele registo de cansaço metafísico, de lassidão poética aparentemente sem saída. Cineasta crepuscular, Angelopoulos esqueceu por uma vez a história e a política, e centrou-se totalmente naquele homem envelhecido, Spyros, que encontramos no fim e já depois do fim.

A primeira cena é um casamento sem alegria (“sorriam, é um casamento”, pede o fotógrafo). Spyros casa a filha, mas a boda demonstra a distância emocional que reina naquela família. O filho de Spyros nem olha o pai nos olhos. E a beldade que há muitos anos Spyros conquistou é agora metade de um casal estiolado, extinto. É aquela sensação de que vos falava: logo no princípio já tudo acabou. À boa maneira melancólica italiana, a festa serve mais pelo efeito de fim de festa. E depois fica cada um entregue à sua solidão. Ao seu epílogo.
(...)

[amanhã no Público]

12/03/2009

Morangos silvestres


















Da «geração morangos», a Benedita era quem me mudava o estado civil, e já conhecem as minhas odes à Cláudia (que aliás conheci e é uma simpatia, e que além do mais está muito bem casada). A minha terceira moranguita preferida é a Joana Duarte. Ao contrário da Benedita e da Cláudia, que me provocam uma certa liquefacção emocional, a Joana mete-me um algum medo. Uma amiga comum (minha e dela) dizia-me outro dia: «os olhos da Joana atravessam as pessoas». Na verdade, Joana Duarte é das três aquela que representa um modelo radicalmente novo de mulher portuguesa. Benedita tem o reconhecível travo upper class, altivo e elegante. Cláudia é a mulher true blue, que desarma pela simplicidade e ausência de pretensão. Mas Joana Duarte, isto é, «Joana Duarte» (a figura pública, não a pessoa em concreto) representa a rapariga portuguesa deste século, a rapariga a quem finalmente chegou a revolução sexual. Está escrito no corpo dela. Há mulheres igualmente magras e mais opulentas, mas em poucos corpos como o de Joana Duarte vemos uma opção escultórica tão assumida, a consciente vontade de trabalhar o corpo como uma escultura. Aquele binómio cintura/glúteos está a ser estudado por Peter Zumthor para uma severa conferência em Basileia. Depois, os olhos. Os olhos de Joana Duarte são pós-trágicos; o mundo que ela habita é um mundo essencialmente lúdico. Um mundo veloz, competitivo, aventuroso, perigoso, afirmativo, instantâneo. Os olhos de Joana Duarte «atravessam as pessoas» porque a rapariga portuguesa contemporânea dispensa os rituais e rodeios ancestrais, afirma muito claramente a sua vontade e o seu à-vontade. O sexo é finalmente uma coisa natural na geração de Joana Duarte, como nunca foi em Portugal. A naturalidade com que ela está nas fotos das revistas masculinas é a naturalidade sem pecado a Norte do Equador. Tudo é sedução e promessa. Mas além disso, Joana Duarte cultiva para a fotografia alguns traços adolescentes mais situados, mais explicitamente não-adultos. Dois exemplos: a quantidade de fotos em que ela aparece ou de língua de fora ou a fazer aquele gesto com o polegar e o mínimo estendidos. Uma espécie de look «radical» e «rebelde», quando essas palavras já foram totalmente assimiladas pelo mainstream. Ela sente-se bem assim, she’s having fun, não tem a passividade «de objecto» que seria esperada, vejam como os dentes, branquíssimos e quase sempre cerrados, são o elemento mais forte do seu rosto, juntamente com os olhos, como ela faz claramente aquilo que quer e leva tudo à frente. Joana Duarte é uma mulher representativa da juventude portuguesa (em versão the happy five percent) assim como Megan Fox é representativa da juventude americana. De uma juventude que se dá em espectáculo: I do live in a glass box.

Avenida da liberdade

Perguntam-me com frequência se tenho «certeza absoluta» de que Deus existe. Respondo sempre que a fé, embora não seja inabalável nem esteja isenta de dúvidas, é uma forma de certeza. Um crente é alguém que acredita, e se acredita tem a certeza. A palavra «absoluta» parece-me redundante, e se alguém a exige é para dar uma tonalidade dogmática à certeza, e portanto para a tornar absolutista. Todas as certezas são relativas, pois todas estão sujeitas a contraprova.

Claro que a «certeza» de que Deus existe não é igual à certeza com que, ao descer a Avenida da Liberdade, sei que estou a descer a Avenida da Liberdade. Há uma certeza empírica que, em geral, é evidente e não admite contradição.

Admito porém que ao descer a Avenida da Liberdade possa estar dentro de um sonho ou de um pesadelo, ou a sofrer de delírios alcoólicos ou psicotrópicos, e também é possível que a «realidade» seja uma «construção mental» como em Berkeley ou uma «ilusão» como em Dick. Em todo o caso, se não se importam, eu quando desço a Avenida da Liberdade acho que estou mesmo na Avenida da Liberdade. Tenho a certeza.

O mesmo com Deus: se eu acredito em Deus, tenho a certeza, embora, felizmente, não possa provar a existência de Deus e possa provar a existência da Avenida da Liberdade: o Tivoli, o consulado de Espanha, as putas, a loja das revistas estrangeiras.

[o tópico «Avenida da Liberdade» deve alguma coisa a um texto de Miguel Tamen]

12/02/2009

Hipertexto
















Lembram-se do Dicionário Khazar? Há duas décadas estava na moda. O romance do sérvio Milorad Pavić (1929-2009) foi publicado em 1984 e traduzido em várias línguas, incluindo o português. É a história do povo Khazar (do Cáucaso) reinventada por Pavić, em entradas de leitura aleatória que funcionam como uma enciclopédia. Não é certamente o primeiro caso de uma espécie de «hipertexto» na literatura (John Barth levava décadas de avanço), mas é um dos mais estimulantes. Pavić constrói uma civilização, insistindo nos aspectos religiosos, mas também num folclore fantástico, em episódios grotescos, na filosofia poética e na erudição fraudulenta. É uma bela investigação da Europa a partir dos seus extremos (geográficos), um delírio culto que deve muito a Borges e anuncia a nossa navegação na Net, cruzando informação talvez infundada. O Dicionário Khazar (que já não encontro nas livrarias), apresentava duas «versões», uma dita «masculina» e a outra «feminina»: tinham apenas uma frase diferente.

Francisco Fernando

O namoro acabou por causa do Francisco Fernando. É verdade que o namoro já estava condenado, porque as relações «estáveis» deixam-me instável. Mas não ajudou ter-me posto a ouvir o álbum de estreia dos Franz Ferdinand como se não houvesse amanhã. Isto durante uma semana, uma e outra vez, acabava e recomeçava, com entusiasmo frenético. Biograficamente, podia dizer-se que queria «forjar um entusiasmo», refugiar-me nele, mas o que é que isso interessa? Os arquiduques traziam uma novidade objectiva: inteligência rítmica, verbal e sexual. De quantos músicos podemos dizer que possuem estas virtudes teologais? Os escoceses tinham bebido do fino, o melhor do rock com guitarras angulosas mas elegantes, e acrescentavam ao brilhantismo na escrita um cinismo lânguido, uma lascívia brainy e a lucidez de estar na vida para agradar às mulheres. Ouvi cem vezes Franz Ferdinand de uma assentada. Depois, o namoro acabou, o segundo álbum foi apenas bom e do terceiro nem gosto muito. Mas a testosterona e a adrenalina não se esquecem, sobretudo quando existem numa vida imaginada.

Amor Fúria



Na fase em que estou (uma «fase», céus) anda tudo junto e aos baldões: o entusiasmo e a raiva, o sarcasmo e o enlevo, o amor e a fúria. É possível que alguém ganhe. É provável que percam todos.

Nada de amargura

« (...) the nearly constant lilt in the grain of his voice belies a kind of disillusionment that is worldweary and disappointed, and never bitter»

[Thom Jurek, do All Music, sobre o último Jason Molina]

12/01/2009

A quem confia















Tomé é muito criticado pela sua dúvida. Mas leiam o que escreveu João: Tomé afirmava que não acreditaria na ressurreição se não tocasse as feridas nas mãos e no lado de Jesus; quando Jesus aparece aos discípulos, diz a Tomé: «Chega aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e mete-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas crente». O evangelista conta que Tomé exclamou: «Meu Senhor e meu Deus!». Ou seja, que acredita de imediato, sem prova física. Por causa de Caravaggio e de outros artistas, julgamos que Tomé só acreditou quando tocou Jesus. É falso. Tomé acreditou na palavra. Não é isso que se pede a quem confia?