1/08/2010

A vida no arame













(...) Mas nada demove Philippe Petit. Explorou longamente o terreno, estudou todas as variáveis, e depois conseguiu introduzir o material de que necessitava. Enfim, na noite de 6 de Agosto de 1974, sobe à socapa ao último andar de uma das torres. Escreve Philippe que o calendário cristão tem o 6 de Agosto como o dia da “transfiguração”: “Não sei o que significa na iconografia do cristianismo, mas quando imagino entrar nas vísceras escuras do WTC, aparecer no cimo da sua coroa, estender um arame na escuridão total e, depois, aparecer inundado de luz, balançando no topo do mundo, acho que transfiguração é uma palavra adequada”.

Esticados os cabos, um trabalho moroso e minucioso, e assentes as espias (cordas verticais que garantem a tensão do arame), tudo está pronto. O jovem Philippe, um miúdo escanzelado, ruivo, quase albino, vai atravessar a mais alta torre. Na manhã de 7 de Agosto de 1974, às 7 horas e 15 minutos, dá-se a transfiguração de Philippe Petit: uma caminhada de 60 metros a mais de 400 metros de altura entre os topos da torre sul e da torre norte. Em cima de um frágil arame. Ele confessou que estava consciente do risco: um quarto de segundo ou meio milímetro a mais ou a menos eram morte certa. Mas Philippe estava finalmente nas suas torres, e para ele não havia nenhum edifício “tão dominador, tão orgulhoso, tão nobre”. Põe o pé no arame, o arame vibra, ele está gelado, há algum vento, algum nevoeiro, a cidade desperta lá em baixo. Andar no arame, explicou Philippe, é uma actividade magnífica porque tem de ser levada a sério. Ele fez da travessia uma aventura lúdica mas também uma aventura espiritual.

Está nervoso, concentrado, esfíngico, enquanto dá os primeiros passos. Vestido de preto, com uma camisola em V sobre o tronco nu, calça sapatos rasos, é um herói impossivelmente elegante e jovem, com a sua mecha de cabelo eriçado e os lábios muito vermelhos. Ao fim de alguns momentos, Philippe sorri. Os pés acomodaram-se ao arame, a tensão está certa, a longa vara que leva nas mãos garante uma horizontalidade que o equilibra, o vento não perturba demasiado. Misto de Houdini e Nureyev, como lhe chamaram, Philippe Petit paira entre os dois edifícios, como se dançasse, deita-se, ajoelha-se, agradece, vai e volta oito vezes, mostra a todos como é esplendorosa a vida no arame, como nenhuma vida vale a pena se não for vivida no arame.
(...)

[no Público de amanhã]