2/19/2010

Claro enigma

















(...) Tal como acontece com os sonhos, as recordações, as memórias involuntárias, o déjà vu, os códigos privados, os jogos de linguagem, Magritte deixa-nos com a intimidade de um enigma, a superfície enigmática e nítida do quadro e as associações que ele provoca. Não tive no Museu Magritte aquela experiência quase religiosa dos florentinos Uffizi, mas reencontrei um punhado de imagens que estão comigo desde sempre, que fazem parte da minha vida mental, imagens que são minhas mesmo que sejam também de milhões de pessoas.

As minhas imagens são por exemplo aquele Pigmalião de A Tentativa do Impossível (1928), um pintor que em pleno acto de criação de uma mulher, uma mulher nua, ainda incompleta, que se faz à sua frente mulher viva. Ou aqueles quartos completamente preenchidos por uma maçã gigante (1958) e por uma rosa gigante (1960), metáfora que tantas vezes usei e tantas vezes me comoveu.

E há outra imagem decisiva, uma fotografia: René e Georgette Magritte em 28 de Junho de 1922, dia do seu casamento, os olhos luminosos dela e os gestos de ternura garantindo que o amour fou pode durar uma vida inteira. É também dessa felicidade que nasce o enigma.


[no Público de amanhã]