As Metamorfoses de Ovídio são o grande museu imaginário da cultura ocidental. Nesta impressionante colectânea encontramos mais de duas centenas de poemas narrativos, histórias encadeadas sobre formas instáveis mudadas na sua natureza. Publius Ovidius Naso (43 a. C – 17 d.C.) escrevia num dos momentos mais importantes da nossa civilização: a época do nascimento de Cristo, do homicídio de César, da Pax Augusta. Roma vivia o seu esplendor literário, com Virgílio, Horácio, Propércio e Tibulo, e havia mecenas que patrocinavam as artes. Com uma posição social estável, sucesso público, amigos influentes e uma erudição helenista, Ovídio gozou os seus anos de apogeu escrevendo sobretudo poesia amorosa, elogios da sedução em estilo desenvolto. Mais tarde, cairá em desgraça, não sabemos bem porquê, e será banido de Roma. Escreve então pungentes poemas de exílio. Mas entre a sedução e o exílio estão as Metamorfoses, não apenas uma recolha de mitologias mas uma fundação de mitologias. Embora o registo inclua tanta a elegia como a farsa, uma ideia atravessa a colectânea: a de metamorfose, de transfiguração. Estes mitos têm uma componente fantástica, que é da própria transformação dos corpos, mas também são histórias verosímeis, histórias de deuses e semideuses humanizados pelas paixões. É talvez por isso que estes mitos nunca saíram do nosso imaginário, e que foram glosados por Chaucer, Dante, Shakespeare, por quase todos os pintores clássicos e, mais perto de nós, por Freud, Kafka ou Hitchcock. Um desses mitos, o de Pigmalião, é a mais espantosa alegoria sobre a criação da mulher ideal, ou sobre o amor como invenção cultural. A metamorfose entre mármore e carne, entre arte e desejo, entre amador e coisa amada, torna este poema com dois mil anos um texto central da nossa cultura.
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