Agora a sério
O teatro de Tom Stoppard sempre tinha sido frio, erudito, cerebral, surreal. Uma mistura de wit inglês com absurdismo eslavo. A meio dos quarenta, porém, o dramaturgo decidiu que era tempo de escrever sobre si mesmo, por mais que o decoro o inibisse.
The Real Thing / Agora a Sério é nitidamente uma peça pessoal, e para os padrões de Stoppard equivale a uma espécie de nudez em público. Mesmo a aproximação realista de Night and Day (1978) não fazia antever um tal mergulho biográfico. Cansado de ser autor de «clever plays», de ser isso e apenas isso, Stoppard criou enfim uma personagem que é um alter-ego assumido.
Verdade seja dita, o ponto de partida desta peça é bastante técnico e mental: jogos pirandellianos de realidade e ficção, teatro dentro do teatro, cenas que se repetem e se espelham. Mas o motivo é naturalista por excelência, convencional mesmo: o adultério burguês. Agora a Sério, no seu enredo e nos seus artifícios, é boulevard. Boulevard de luxo, sem dúvida, mas marcadamente distante das farsas elitistas dos anos 1970.
Henry, o dramaturgo dividido entre duas actrizes, é confrontado com a perda das suas certezas, do seu ascendente, e com a insuficiência da sua retórica e do seu sarcasmo. Ele, que como autor teatral é naturalmente um ficcionista, tem que decidir agora o que é real, ou antes, o que é autêntico. A autenticidade, ainda mais do que a realidade, é uma questão central em Agora a Sério. Quando é que podemos dizer que «agora é a sério»?
Tudo aqui é posto em causa: a política, a literatura, o amor. Agora a Sério não abdica do registo stoppardiano de comédia de ideias com destreza verbal. E continuam brilhantes as suas dissecações da fidelidade, do activismo, da linguagem. Mas o tom é mais intimista, mais magoado. Stoppard joga com todas as acusações que lhe tinham sido feitas, e põe-se em causa, embora reitere a sua fé inabalável nas palavras.
A peça é claramente uma comédia porque tem diálogos inteligentes e rápidos, alusões e paródias letradas, um timing humorístico, situações caricatas. Mas é também um exercício sobre «o auto-conhecimento através do sofrimento», por mais que essa frase seja dita ironicamente. Se a diferença entre as peças e a vida real é «tempo para pensar», Agora a Sério dá a Henry algum tempo para questionar o seu elitismo cultural, a sua distância emocional, o seu absentismo social. A peça está carregada de rimas internas, e também de rimas com a vida de Stoppard, incluindo a sua vida conjugal. Basta dizer que Stoppard dedicou o texto à mulher com quem era casado em 1982, e que mais tarde viveu com a actriz que em 1982 representou Annie, a actriz por quem Henry se apaixona.
Há duas convicções profundas em Agora a Sério: as palavras devem ser usadas com propriedade e as posições públicas resultam de motivações privadas. Mas há também várias dúvidas, dúvidas autênticas. Não é uma peça perfeita, mas é uma peça corajosa, mesma na sua aparente incapacidade de «escrever sobre o amor». A comédia ficou mais credível que a tragédia, porque tudo parece demasiado contido ou engraçado, mas para Stoppard o grau de exposição foi enorme. Ele saiu da sua zona de conforto, e não repetiu a experiência. Depois de escrever esta a que chamou «the love play», declarou: «You’ve done that. You can’t do it again». A peça seguinte, believe it or not, foi sobre espionagem e física quântica.
[posfácio à edição em livro da peça de Tom Stoppard, edição Tinta-da-China]

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