4/25/2010

O colectivo em 2010

Tinha tido choques com pessoas, e um ou outro choque com as «instituições». Mas só muito tarde, depois dos trinta, choquei com o «colectivo». Confesso a minha ingenuidade: não estava preparado para aquele grau de violência. Acção em matilha, radicalismo verbal, veto, omissão, conspiração e boataria infame.

Eu sempre detestei o colectivo, mas era uma oposição sobretudo ideológica, baseada em testemunhos de terceiros. Depois percebi à minha custa. Percebi os mecanismos do colectivo, ferozes e frenéticos. E percebi o seu motivo, que é sempre o desejo de poder.

De facto, nos primeiros anos deste século fui conhecendo a «turminha do poder», gente da minha idade e da minha geração que alimenta uma única ambição: chegar ao poder. Aos vários poderes. Qualquer atitude que perturbe a sua caminhada de ascensão social e hegemonia ética não é tolerada. Quando eles me atacavam, não era a mim que atacavam, eu nem existo nas contas deles, estavam apenas a afastar todos os empecilhos, ainda que frágeis, à sua coreografia de cooptações e fodas, de compadrios e futilidades, de opiniões trêndi e coscuvilhices.

Um deles, fã de hipocrisias escancaradas, ainda me pergunta «quando é que apareces». Ah, digo eu, mas eu não apareço, não torno a aparecer, desapareci. E sorrimos ambos, satisfeitos com a resposta.