Uma forma de ficção
O que é que o dramaturgo faz para transformar uma boa história, baseada ou não em acontecimentos reais, numa obra de arte duradoura? Hmm. Não liguem ao que eu vou dizer, porque não faço a mais pequena ideia, mas acho que tem a ver com o controlo da informação do palco para o público. A arte está toda em dizer aos espectadores isto e não mais que isto, neste momento e não naquele, por esta ordem e não numa ordem diferente. É isso que acontece. O público está ali sentado, com os olhos abertos e os ouvidos atentos, e nós estamos a mostrar e a contar coisas. E quer eles estejam divertidos ou aborrecidos ou fascinados, isso tem a ver, é claro, com a qualidade da representação, com a variedade visual, mas no caso do teatro em que eu trabalho, que é, suponho, o teatro de texto transformado em acontecimento, nesse tipo de teatro o que o dramaturgo faz é ir libertando informação. No princípio do espectáculo ele tem, digamos, uma grande bexiga de informação, e no fim do espectáculo o público ficou com o conteúdo dessa… Hmmm. Isto pode, hmm, tornar-se num assunto um bocado desagradável. Portanto, hmm, não vamos dizer bexiga, ele tem um saco às costas que vai esvaziando. Eu adoro estas conversas, adoro teorizar sobre a escrita teatral, e gosto tanto disto porque é uma forma de ficção, não tem qualquer realidade ou verdade.
[de uma entrevista a Tom Stoppard, usada numa cena do espectáculo]

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