5/07/2010

Alteza sereníssima

Grace Kelly será sempre a mulher ideal dos homens que apreciam a subtileza. «Não gosto de nada que seja óbvio, seja sexo, maquilhagem ou roupa. Gosto mais de coisas subtis, que deixem espaço à imaginação», disse Grace, e é todo um programa. Quando Grace Kelly estava no auge, na década de 1950, as estrelas eram cada vez mais óbvias, cada vez mais espampanantes, peitudas, ruidosas. A acentuada sexualização do pós-guerra ameaçava a cultura da subtileza. Felizmente, tivemos Grace.

Grace Patricia Clark nasceu em 1929, em Filadélfia, numa abastada família católica de origem irlandesa. A beleza também é uma questão de luta de classes, e Grace representou desde cedo essa condição que estava contida no seu nome: a condição patrícia. Ela era jovial, elegante, distinta, mantinha uma postura perfeita, preferia um formalismo descontraído que fez escola. Depois de passar pela moda, o teatro e a televisão, chegou ao cinema, e entre 1951 e 1956 fez onze filmes, incluindo «O Comboio Apitou Três Vezes» (Zinnemann, 1952), «Mogambo» (Ford, 1953), «Chamada para a Morte» e «A Janela Indiscreta» (Hitchcock, 1954), «Ladrão de Casaca» (Hitchcock, 1955). E, já noiva, fez muito apropriadamente de princesa em «O Cisne» e de menina rica em «Alta Sociedade».

Diz-se que Grace se achava demasiado tranquila para ser realmente bela, mas a sua serenidade discreta e cheia de classe tornava-a inconfundível num mundo cada vez mais tumultuoso. Constantemente fotografada, Grace sabia o que lhe ficava bem, o cabelo curto ondulado que libertava o rosto luminoso, pouca maquilhagem, a carteira Hermès, os chapéus pequeninos, mais tarde os óculos, as imprescindíveis luvas brancas. Fred Zinnemann ficou estarrecido quando a conheceu, nunca tinha visto uma mulher de luvas brancas. Faziam parte do sentido de classe e elegância que ela cultivava. A Time pôs Grace na capa em Janeiro de 55 e anunciava «Gentlemen prefer ladies». Não é infelizmente verdade, mas é um excelente voto. (...)


[no Público de amanhã]