5/14/2010

Custer, elogio da derrota

Em miúdo, eu tinha em casa álbuns, bonecos, cromos, ele foi talvez o meu primeiro herói. Aprendi cedo que um herói não é apenas aquele que vence, é alguém com convicção e coragem, que arrisca tudo e que os outros consideram um louco. (...)

A última figura geométrica de Little Bighorn terá sido aquele círculo de soldados e oficiais que se defendiam a tiro e à espadeirada, quase todos já feridos de morte, rodeados de cavalos caídos, de lanças e flechas espetadas. Não se sabe o que aconteceu, há apenas testemunhos parciais, duvidosos, mas o grande chefe Sitting Bull disse que Custer parecia “uma espira de trigo”, que se mantinha a custo de pé, baloiçando ao vento e entre a saraivada de projécteis, morrendo como o herói que quis ser em vida.

Os homens de George Custer terão resistido entre trinta a sessenta minutos numa pequena colina, até que não restou ninguém. Ainda que mitificada ou imprecisa, esta cena é uma das minhas cenas primordiais, uma daquelas que para mim define o que é um herói: não um perpétuo vencedor, mas o homem corajoso que até encontra a glória numa derrota.


[no Público de amanhã]