Não aconteceu nada
Depois de Eça, Oliveira vai adaptar ao cinema Machado de Assis: «Missa do Galo», um conto de 1893. Ao pé da «patologia» ambígua mas activa da rapariga queirosiana, a subtileza minimalista do conto machadiano parece quase infilmável. O que é que acontece em «Missa do Galo»? Nada. Um estudante de dezassete anos conversa com a mulher do escrivão carioca em casa de quem está hospedado, enquanto faz horas para ir à missa do galo. Ela sabe que o marido anda com outras. É uma mulher de trinta anos, submissa, tranquila, triste, não especialmente bonita. A conversa sobre tudo e nada, noite fora, encanta o rapaz. À hora da missa, vêm chamá-lo e ele sai. Ela vai-se deitar. No dia seguinte, a mulher porta-se como se nada tivesse acontecido, como se a conversa não tivesse existido, como se naquela banalidade nocturna houvesse alguma malícia, alguma culpa, alguma confissão. Não se passou nada, e ela finge que se passou alguma coisa? Ou aconteceu alguma coisa, e por isso ela finge? O rapaz conta que depois disso foi embora do Rio e nunca mais a viu.

<< Página inicial