Vontade indómita
Há duas Patricia Neal.
Há a Patricia Neal que foi Dominique Francon. Uma mulher orgulhosa e carnal que se apaixona pelo arquitecto interpretado por Gary Cooper no magnífico (e fascistóide) The Fountainhead (1949), que em português se chamou, grande título, Vontade Indómita. Patricia e Cooper tinham um caso, e aquelas cenas selvagens (a vergastada, o agarranço, o elevador fálico) ganham uma força adicional por causa disso, uma violência primitiva no meio daquela conversa programática sobre o individualismo e o triunfo da vontade. The Fountainhead é um filme erótico para nietzschianos, e Patricia Neal tem a segurança e o desprezo patrícios necessários.
E há a Patricia Neal que foi Mrs. Dahl. Ela casou em 1953 com Roald Dahl, escritor, aviador, espião, casanova, e nem sequer gostava dele, nem ele dela. Ele aliás tinha um feitio difícil (ela chamava-lhe Roald the Rotten) e andava com outras mulheres. Mas num curto espaço de tempo o casal perdeu dois filhos pequenos, num acidente e numa doença, e depois Patricia tem três derrames cerebrais, entra em coma, fica paralítica e a afásica. E Roald, o Rotten Roald, trata de tudo o que é preciso, mudanças, viagens, exercícios, operações, terapia, companhia, acompanhamento, incentivo, e Patricia recupera completamente, ao ponto de voltar aos palcos e aos estúdios.
Patricia amou Gary e Gary amou Patricia, mas ele era casado, a relação durou pouco, e só ficou aquele amor furioso em celulóide.
Patricia não amava Roald e Roald não amava Patricia, mas ele fez tudo por ela, trouxe-a de nova à vida, e depois trocou-a pela melhor amiga dela.
Patricia Neal nasceu em 1926 e morreu em 2010.

<< Página inicial