The sense of an ending

Frank Kermode (1919-2010) foi o maior crítico inglês das últimas décadas, o sucessor, na academia, de Leavis, e, na imprensa, de Pritchett. É essa dupla condição que o torna único: a erudição universitária e a comunicabilidade jornalística cruzavam-se perfeitamente, de modo que aprendíamos realmente com ele, escrevesse sobre o Beowulf ou sobre Roth. Especialista em Milton, Donne, Shakespeare, publicou algumas obras de referência, como The Romantic Image (1957), sobre as continuidades imagísticas entre o romantismo e o modernismo, e The Sense of an Ending (1967), onde estuda a escrita apocalíptica e investiga as «ideias de ordem». Foi o introdutor em Inglaterra da teoria literária francesa, mas depois afastou-se dos seus excessos, defendendo o amor pela literatura e a acessibilidade da crítica. Editou uns quantos ensaios de Eliot inéditos em livro e tornou Wallace Stevens conhecido no Reino Unido. Dominava os clássicos e os grandes novecentistas, mas acompanhava os novos, até à geração dos trintas e tal. Era um excelente guia. Fui-o lendo sobretudo na London Review of Books, jornal que ajudou a fundar em 1979 e onde se pratica uma crítica que vai além da recensão e tende já para o ensaio. Muitas dessas colaborações para a LRB estão reunidas em The Uses of Error (1991), Pleasing Myself (2002) e Bury Place Papers (2009). Era sempre um prazer ler Kermode: cultíssimo, atento, inteligente, aventuroso, mas também discreto, modesto, irónico, tranquilo. Foi feito Sir em 1991, distinção nada óbvia para um crítico literário. Mas ele era de facto um aristocrata da crítica, quem sabe se o último. Ainda há gente muito capaz, Eagleton, Ricks, Wood, mas vamos ter saudades de Frank Kermode, o homem que sabia, como nós sabemos, que é na literatura que existe um sentido para tudo isto.

<< Página inicial