As lágrimas de Eros

O Thyssen-Bornemisza organizou há meses uma exposição chamada Lágrimas de Eros. Como assim, lágrimas de Eros? Na nossa cultura de optimismo sexual, parece uma contradição. Não é. Em Les larmes d’Éros (1961), Georges Bataille escreveu: “A morte é associada às lágrimas, e às vezes o desejo sexual é associado ao riso. Mas o riso não é, como parece, o contrário das lágrimas: o objecto do riso e o objecto das lágrimas estão ambos ligados a uma espécie de violência que interrompe o curso regular e habitual das coisas. As lágrimas estão geralmente associadas a acontecimentos inesperados, desoladores, mas um resultado feliz e inesperado também nos pode comover até às lágrimas. A desordem sexual evidentemente, não nos causa lágrimas, mas ainda assim perturba-nos (…)”.
A exposição nasceu das ideias de Bataille. No ensaio já citado, um estudo de antropologia sexual, o escritor francês recusa a visão inócua da sexualidade. Há em todas as culturas, diz Bataille, uma coincidência entre a morte e o erotismo que torna este em algo de “diabólico”. A sexualidade está ligada ao nascimento, à procriação, à utilidade, mas o homem, espécie consciente, quebrou essa naturalidade. Consciente da morte e consciente da libido, o homem sabe que Eros tem uma dimensão diabólica. Eros é um impulso demente, um transporte irreprimível, que nos deixa por vezes à beira do abismo. Na pintura ocidental, lembra Bataille, Eros foi sempre alegoria de Thanatos, de Cranach e Bacon.
A cultura do optimismo sexual não compreende o conceito de “lágrimas de Eros”. Bataille explica porquê: desvalorizámos a componente religiosa da sexualidade. E agora há aspectos que nos escapam. É fácil dizer que o cristianismo condena a sexualidade; mas é preciso percebermos que o interdito religioso é a suprema homenagem ao erotismo, e também um elo de ligação entre o sagrado e o profano. A sexualidade, tal como o divino, é alguma coisa que excede a simples realidade, é uma dimensão visceral que violenta o nosso conforto quotidiano. E isso não nasceu com o cristianismo: Bataille lembra que os cultos dionisíacos eram cultos do trágico. O que mudou, desde os gregos, foi o avanço do sujeito individual, que cultiva um utilitarismo hedonista indiferente ao religioso. Muita gente vive hoje como se houvesse sexualidade sem tragédia. Como se houvesse Eros sem lágrimas. (...)
[amanhã no Público]

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