9/20/2010

Vocês agora



O achado dos Eels consistiu em boicotar a dinâmica maníaco-depressiva com uma certa gentileza. Beautiful Freak (1996) e Electro-Shock Blues (1998) espelhavam uma depressão traumática e raivosa, e Souljacker (2001) era feito de guitarras sem piedade, mas Eels with Strings: Live at Town Hall (2006) decantava tudo numa jornada sentimental e orquestral. Tanto maníaco como depressivo, Mark Everett também ia mudado de visual, de totó de biblioteca, com óculos de massa e gravatinha texana, a motoqueiro hirsuto e de poucos amigos. Mas estas canções tinham melodias simples, quase infantis, lamentos, pieguices, ternuras desfeitas. Ainda não ouvi com atenção os recentes End Times e Tomorrow Morning, mas dizem que E está mais contente com a vida. Pelo concerto de ontem, não parece. Os Eels, em fim de digressão, foram medíocres na comunicação com a plateia, mas ontem tiveram momentos de entrega frenética, riffs acompanhados de gritos e gritos acompanhados de riffs (os meus ouvidos ainda apitam). «Flyswatter», «Prizefighter», «Hombre Lobo» e até o pueril «I Like Birds» foram sacos de pancada para aqueles quarentões quietos e barbados, badmotherfuckers todos eles. Não sei se a depressão se cura com a exaltação, mas os Eels raramente foram docinhos (talvez só no inevitável «In My Dreams»); o que dominou foi o exorcismo ruidoso, a bravata anti-social, «fodam-se vocês agora que a mim já não me fodem mais». O público não gostou. Eu agradeci.