10/17/2010

O lustre da resignação

Um amigo censura a minha atitude de «vencido da vida». Explica as razões pelas quais me considera um «vencedor», e lamenta que eu negue as evidências. Esboço uma réplica, mas depois lembro-me que nesta matéria há uma citação definitiva. Chego a casa, tiro o Eça da estante, e escrevo a resposta tomada de empréstimo:

O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã é que se chamem vencidos àqueles que, para todos os efeitos públicos parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflicta que para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação.