10/27/2010

Um depravado

Costumo dizer que o sofrimento me transforma num selvagem: isolado da sociedade civilizada, ensimesmado nas minhas sensações intransmissíveis, esquecido dos deveres básicos de atenção e cortesia. Imagino-me uma pessoa educada, e não passo de um cafre. Mas a definição de Alphonse Rabbe, mestre de pessimismo, é mais dura ainda, porque não procura a desculpa de uma espécie de «mudança de natureza»; Rabbe escreve que o sofrimento causa uma depravação, e portanto não estamos para além do bem e do mal, estamos em plena abjecção ética. Quando digo que me torno um selvagem, estou a fugir a questão; na verdade, torno-me um depravado.