10/26/2010

Uma história do futuro

Infelizmente, acabei por não ver em palco Hedda, a versão reescrita por José Maria Vieira Mendes da peça de Ibsen [1890]. Mas li o texto, publicado nos livrinhos de teatro Artistas Unidos / Cotovia. Tenho uma certa resistência a Ibsen, que sempre me pareceu demasiado programático, embora tenha, a vários títulos, algum interesse específico em Hedda Gabler. Em compensação, Vieira Mendes é o nosso dramaturgo vivo que mais me interessa. Ele já tinha adaptado outros clássicos, dramaturgos ou não, mas em Hedda desbastou grande parte da ganga burguesa do texto de Ibsen, mantendo apenas algumas referências irónicas (as saídas de cena muito bem delineadas, pela esquerda, direita e fundo) e um nadinha de conversa de salão entediante. A sua Hedda é ao mesmo tempo mais implícita e mais explícita do que a de Ibsen, mais sucinta e mais directa. As ideias de casa e de casal são habituais na escrita de Vieira Mendes, e só achei curioso como ele eliminou as referências à gravidez de Hedda. Em vez de uma pioneira feminista ou de uma neurótica destrutiva, a Hedda de Vieira Mendes tem simplesmente a independência das mulheres modernas, o desencanto das mulheres adultas e a retórica das mulheres letradas. A peça de Ibsen contém passagens que me parecem de comédia involuntária (parodiadas aliás numa peça curta de Barrie, Ibsen's Ghost, 1891); mas aqui toda a comédia é voluntária, incluindo algumas deliciosas alusões contemporâneas (como ao anúncio: «o algodão não engana»). Uma das coisas que mais gosto no texto original e nesta versão é a questão do casamento como «futuro» e de um manuscrito (depois queimado) que é justamente uma «história do futuro». A peça de Ibsen tem uma famosa frase final: «Isso é uma coisa que as pessoas dizem mas não fazem»; é uma tirada cínica sobre o suicídio, mas pode transformar-se numa reflexão pessimista sobre uma espécie de recusa do futuro. A «felicidade doméstica» é tudo menos evidente, falta saber apenas se a «recusa do futuro» consistir em casar, em recasar ou em não casar de todo. Eis uma dúvida a que nenhuma evolução histórica respondeu ainda.