A rede social
A Rede Social é o biopic de um geek de sucesso? Uma fábula sobre a ambição e a corrupção? Uma meditação sobre o Facebook? Tudo isso, e nada disso.
Versão «ficcionada» de um controverso livro sobre o Facebook, A Rede Social traça um retrato impiedoso do seu criador, Mark Zuckerberg, um miúdo traumatizado, obcecado, arrogante e invertebrado. Mas o «Zuckerberg» de David Fincher nunca passa de um enigma ensimesmado e inexpressivo. Não esperem daqui psicologia sofisticada, muito menos tragédia grega.
Fincher é bastante mais consequente quando disseca a dimensão empresarial do conceito Facebook. Zodíaco (2007) estava pejado de relatórios policiais, notas inconclusivas, até ao mais ínfimo detalhe; aqui temos jargão informático e linguagem negocial e jurídica. O Facebook é uma ideia que vale milhões, e isso interessa o cineasta, que conta a história como um clássico conflito de luta pelo poder. Um poder que hoje em dia está também nas mãos de uma elite tecnológica adolescente, mergulhada nas aspirações e insuficiências da adolescência. E que viu uma técnica de engate tornar-se numa batalha capitalista.
A tese de que Zuckerberg chegou ao sucesso global movido apenas pelo ressentimento classista e o insucesso amoroso é assustadora, e assustadoramente provável. Não há como gostar deste Zuckerberg de Fincher, que será ou não conforme ao original, não temos a certeza. «Todos os mitos de criação precisam de um demónio», diz-se a certa altura, mas este Zuckerberg parece apenas o demoniozinho a que a actual civilização tem direito.
E há aqui de facto um «mito da criação», ou perdemos toda a noção das proporções? O Facebook tem quinhentos milhões de inscritos, muito bem, mas de certeza que veio para ficar? Mais importante: podemos garantir que o Facebook mudou a nossa vida social de modo radical e definitivo? É cedo para ter a certeza.
O filme inclui intermináveis discussões sobre direitos de propriedade intelectual, e ainda bem, mas em compensação não há quase nada sobre a privacidade, o calcanhar de Aquiles do Facebook enquanto projecto «ideológico». Que ninguém se esqueça de que Zuckerberg já defendeu que uma democracia ideal é uma sociedade onde sabemos tudo sobre toda a gente. Ou seja: uma sociedade totalitária.
Enquanto cinema, A Rede Social é um objecto elegante, veloz, divertido, intenso, conciso, minucioso, irrepreensivelmente escrito; mas não nos ensina nada sobre a questão «tecnologia e vida privada». Fincher é especialista em «zeitgeist movies», mas desta fez ficou enredado no «caso Facebook», em vez de desmontar o «efeito Facebook», que é o que mais interessa.
Dito isto, que portentosa cena final: um rapazola que discute negócios milionários mas totalmente angustiado com a resposta ao «pedido de amizade» que fez a uma rapariga. E enquanto ela não responde ele faz «refresh», «refresh», «refresh».
Versão «ficcionada» de um controverso livro sobre o Facebook, A Rede Social traça um retrato impiedoso do seu criador, Mark Zuckerberg, um miúdo traumatizado, obcecado, arrogante e invertebrado. Mas o «Zuckerberg» de David Fincher nunca passa de um enigma ensimesmado e inexpressivo. Não esperem daqui psicologia sofisticada, muito menos tragédia grega.
Fincher é bastante mais consequente quando disseca a dimensão empresarial do conceito Facebook. Zodíaco (2007) estava pejado de relatórios policiais, notas inconclusivas, até ao mais ínfimo detalhe; aqui temos jargão informático e linguagem negocial e jurídica. O Facebook é uma ideia que vale milhões, e isso interessa o cineasta, que conta a história como um clássico conflito de luta pelo poder. Um poder que hoje em dia está também nas mãos de uma elite tecnológica adolescente, mergulhada nas aspirações e insuficiências da adolescência. E que viu uma técnica de engate tornar-se numa batalha capitalista.
A tese de que Zuckerberg chegou ao sucesso global movido apenas pelo ressentimento classista e o insucesso amoroso é assustadora, e assustadoramente provável. Não há como gostar deste Zuckerberg de Fincher, que será ou não conforme ao original, não temos a certeza. «Todos os mitos de criação precisam de um demónio», diz-se a certa altura, mas este Zuckerberg parece apenas o demoniozinho a que a actual civilização tem direito.
E há aqui de facto um «mito da criação», ou perdemos toda a noção das proporções? O Facebook tem quinhentos milhões de inscritos, muito bem, mas de certeza que veio para ficar? Mais importante: podemos garantir que o Facebook mudou a nossa vida social de modo radical e definitivo? É cedo para ter a certeza.
O filme inclui intermináveis discussões sobre direitos de propriedade intelectual, e ainda bem, mas em compensação não há quase nada sobre a privacidade, o calcanhar de Aquiles do Facebook enquanto projecto «ideológico». Que ninguém se esqueça de que Zuckerberg já defendeu que uma democracia ideal é uma sociedade onde sabemos tudo sobre toda a gente. Ou seja: uma sociedade totalitária.
Enquanto cinema, A Rede Social é um objecto elegante, veloz, divertido, intenso, conciso, minucioso, irrepreensivelmente escrito; mas não nos ensina nada sobre a questão «tecnologia e vida privada». Fincher é especialista em «zeitgeist movies», mas desta fez ficou enredado no «caso Facebook», em vez de desmontar o «efeito Facebook», que é o que mais interessa.
Dito isto, que portentosa cena final: um rapazola que discute negócios milionários mas totalmente angustiado com a resposta ao «pedido de amizade» que fez a uma rapariga. E enquanto ela não responde ele faz «refresh», «refresh», «refresh».

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