11/14/2010

Enquanto me afasto

Julguei que já não vinhas, era tarde, eu já nem devia estar ali, mas de repente, no meio da chuva e do frio, avançaste para mim, era o teu cabelo, o teu tom de pele, um chapéu igual aos teus, que escondia o nariz e os olhos, avançaste para mim, numa diagonal flagrante, tive um sobressalto, ou quase, nem houve tempo, ela levantou a cabeça, ela porque não eras tu, e eu virei a cabeça para o outro lado, envergonhado, por que diabo achava ainda que virias ter comigo, à vigésima quinta hora, no meio do frio e da chuva?

Enquanto me afasto, lentamente, penso que durante todo este tempo fui como um homem que pede a Deus um sinal. Um homem que acredita mas não aguenta mais silêncio, ou que não acredita e desafia um deus fictício. Essa bravata, no entanto, não nos diz nada sobre Deus. Quem tem que se manifestar é o homem. Tem que se manifestar a si mesmo, escolhendo a vida que leva. Um homem não é uma divindade: não há dúvida de que existe e não há dúvida de que deixará de existir em breve. Só ainda não sabemos se escolhe a liberdade ou o desespero.