12/30/2010

A música de uma ideia


















Releio The Whitsun Weddings, e demoro-me nos poemas «Love Songs in Age» e «Dockery and Son». Em 1964, Larkin era pouco mais velho do que eu sou agora, e acreditava que tudo o que existe é tédio e medo, ou acaba em tédio e medo, que são duas formas de nulidade.

No poema sobre o antigo colega de faculdade que entretanto já tem um filho na faculdade, o sujeito que deixou a vida fugir confronta-se com uma surpresa momentânea: a inesperada «normalidade» biográfica dos outros. Sente-se diminuído por causa disso? Não exactamente. Ele diz que cada um seguiu o seu caminho, que cada um atribuiu significados diferentes às palavras em que acredita e às opções tomadas. E depois o hábito instalou-se, o tempo passou, de modo que cada um se tornou naquilo que fez no passado.

O poema sobre a mulher que ouve discos antigos é mais ambíguo. A rapariga envelheceu, o vinil também, mas a música continua nova e fresca, como se fosse «that much-mentioned brilliance, love». Aqueles discos não são apenas memorial de um tempo, de pessoas e acontecimentos: são a memória de uma ideia. Ela acreditou um dia nessa ideia, nessa possibilidade. Quando a rapariga era ainda rapariga, acreditou num amor que «resolve», que satisfaz», que «ordena». Anos depois, verifica que nada disso aconteceu, e já é tarde. Mas a música, essa, continua fresca, nova e brilhante. É a música de uma ideia.