12/31/2010

Os melhores anos

















Daqui a um ano faço 39, a idade que o jovem Krapp tinha quando gravou as fitas que o velho Krapp descobre e ouve. Um momento alto de 2010 foi aliás a encenação de Krapp’s Last Tape com Michael Gambon. Comovi-me, é claro, com aquele homem isolado, desleixado, destreinado, maniento, impaciente, aquele velho que vive numa terra de ninguém rodeado de memórias gravadas em bobines. É tão arisco e tão frágil, Krapp, impressionante a maneira como ele reage às coisas antigas ditas por uma voz antiga, que é a sua, e pergunta como é que «aquele» é ele, é «eu», um palerma já velho aos 39 anos recordado por um palerma ainda mais velho. Decide gravar uma fita nova para acrescentar coisas, comentar, protestar, emendar, mas percebe que verdadeiramente não há mais nada a dizer. Estava tudo dito aos 39: «Here I end this reel. Box - (pause) - three, spool - (pause) - five. (Pause). Perhaps my best years are gone. When there was a chance of happiness. But I wouldn't want them back. Not with the fire in me now. No, I wouldn't want them back».