E no entanto esta não é a última palavra
Em Londres, no hotel, ligo a televisão antes de dormir e, nem de propósito, está a dar em repetição o último episódio de Brideshead Revisited (1981), o meu preferido.
Revejo aquela cena que, segundo alguns críticos, impede o romance de Waugh de ser uma obra-prima, a pouco subtil mas delicada extrema-unção de Lord Marchmain, e aquele gesto trôpego com que ele faz o sinal da cruz. E não nego que a cena me toca, tal como me toca o momento em que Julia vem dizer a Charles que está tudo acabado, e ele, sentado nas escadas, diz que já sabia, num momento de incrível desolação, aceitação e raiva.
Mas o que eu gosto mesmo, mais que tudo, é o epílogo. Passaram uns anos, estamos em plena guerra mundial, e Brideshead é usado como aquartelamento. Charles Ryder, agora capitão de infantaria, vai dar uma volta pela mansão onde foi tão feliz e infeliz. Entra na capela. E na capela, intacta, encontra uma lâmpada a arder ainda junto ao sacrário. Pronuncia uma velha oração meio esquecida, e sai, pensativo e melancólico.
Pensa agora no destino de todas as coisas criadas. Os construtores construíram aquela casa com pedras vindas do antigo castelo, e não sabiam que uso iriam dar à casa as gerações futuras. As gerações seguintes foram aumentando a casa, e em volta as árvores foram crescendo. Até que chegou o tempo da decadência e da extinção. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
«E no entanto, [cito de memória] esta não é a última palavra; nem sequer é uma palavra adequada; é uma palavra morta de há anos atrás». Pois do trabalho dos construtores nasceu afinal alguma coisa, uma coisa nova no meio daquela tragédia humana. Aquela pequena chama numa deplorável lâmpada de cobre ainda arde no tabernáculo. É a velha chama dos antigos cavaleiros, que arde agora para outros soldados, numa nova luta.
Essa lâmpada «só podia ter sido acendida pelos construtores e pelos grandes trágicos», diz Charles Ryder, «e aí a encontrei esta manhã, ardendo de novo entre velhas pedras».
Revejo aquela cena que, segundo alguns críticos, impede o romance de Waugh de ser uma obra-prima, a pouco subtil mas delicada extrema-unção de Lord Marchmain, e aquele gesto trôpego com que ele faz o sinal da cruz. E não nego que a cena me toca, tal como me toca o momento em que Julia vem dizer a Charles que está tudo acabado, e ele, sentado nas escadas, diz que já sabia, num momento de incrível desolação, aceitação e raiva.
Mas o que eu gosto mesmo, mais que tudo, é o epílogo. Passaram uns anos, estamos em plena guerra mundial, e Brideshead é usado como aquartelamento. Charles Ryder, agora capitão de infantaria, vai dar uma volta pela mansão onde foi tão feliz e infeliz. Entra na capela. E na capela, intacta, encontra uma lâmpada a arder ainda junto ao sacrário. Pronuncia uma velha oração meio esquecida, e sai, pensativo e melancólico.
Pensa agora no destino de todas as coisas criadas. Os construtores construíram aquela casa com pedras vindas do antigo castelo, e não sabiam que uso iriam dar à casa as gerações futuras. As gerações seguintes foram aumentando a casa, e em volta as árvores foram crescendo. Até que chegou o tempo da decadência e da extinção. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
«E no entanto, [cito de memória] esta não é a última palavra; nem sequer é uma palavra adequada; é uma palavra morta de há anos atrás». Pois do trabalho dos construtores nasceu afinal alguma coisa, uma coisa nova no meio daquela tragédia humana. Aquela pequena chama numa deplorável lâmpada de cobre ainda arde no tabernáculo. É a velha chama dos antigos cavaleiros, que arde agora para outros soldados, numa nova luta.
Essa lâmpada «só podia ter sido acendida pelos construtores e pelos grandes trágicos», diz Charles Ryder, «e aí a encontrei esta manhã, ardendo de novo entre velhas pedras».

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