A grande fogueira
Em arrumações, encontro três cadernos cheios de transcrições de mensagens. Não sabia que ainda os tinha, nem me lembrava deles, andavam desaparecidos há anos. Um deles cai ao chão e fica aberto, talvez de propósito. Espreito. Não gosto do que leio. É espantoso que ela tenha escrito coisas destas, impossível perdoar a quem escreveu isto. Fecho o caderno, quase chocado. Que faço agora? Leio mais? Guardo no fundo de uma gaveta? Destruo? Faço como o Lowell, que citou nos poemas as cartas da sua ex [The Dolphin, 1973]? É a hipótese menos deontológica, a mais selvagem, e neste caso também a mais justa, felizmente não tinha os cadernos à mão quando fui enxovalhado em público. Mas o tempo da legítima defesa passou. Por isso arrumo-os e esqueço-me deles. Até que chegue, mais cedo que tarde, o dia da grande fogueira. E possam enfim arder os cadernos, ela e eu.

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