A repetição

Kierkegaard conhece Regine Olsen em casa de amigos em 1837, tinha ela 14 anos, pede-a em casamento em 1840, e rompe o noivado no ano seguinte. Era um acto socialmente grave mas inevitável, que a levou ao desespero. Kierkegaard nunca deixou de amar Regine, mas não podia casar com ela, pois o casamento não era a sua vocação.
Para que Regine pudesse continuar a sua vida em paz, sem ficar destroçada, tentou durante algum tempo convencê-la de que era um leviano que a tinha enganado. É daí que nascem «Diário de um Sedutor» e «Gjentagelsen» / «A Repetição», ambos publicados em 1843. Filósofo e teólogo, Kierkegaard tornava-se agora uma espécie de poeta.
«A Repetição» [trad. port.de José Miranda Justo, Relógio D’Água] é um livro breve escrito em Berlim na Primavera de 1843. Chegou às livrarias a 16 de Outubro, no mesmo dia que o genial «Temor e Tremor». É assinado com o pseudónimo Constantin Constantius. O uso de pseudónimos, que se tornará recorrente, marca o início da vida de Kierkegaard como escritor. Um escritor da ruptura e da justificação, tão brilhante e autobiográfico como o «Adolphe» (1806) de outro Constantius: Benjamin Constant.
Embora curto, é um livro complexo, compósito, que inclui cartas, comentários às cartas, trechos narrativos e ensaios. Kierkegaard diz que o livrinho será lido por poucos e entendido por ninguém. E cita em seu abono Clemente de Alexandria, que escrevia textos herméticos para que os heréticos não o compreendessem, mas apenas os crentes. «A Repetição» também não se destina aos heréticos, esses «vigorosos defensores da realidade», mas aos que acreditam. Aos crentes na melancolia.
A Repetição conta a história de um rapaz, nunca nomeado, que se apaixona perdidamente por uma rapariga, e faz de Constantin Constantius seu confidente. O rapaz, tal como Kierkegaard, ama realmente a rapariga, mas é consumido pela melancolia. Constantin comenta: «Muito frequentemente as pessoas insistem em que um melancólico devia apaixonar-se e então a melancolia desapareceria completamente. Ora, se se trata realmente de um melancólico, como haveria de ser possível que a sua alma não se ocupasse melancolicamente daquilo que para ele se tornou a mais importante de todas as coisas?» (...)
[no Público de amanhã]

<< Página inicial