12/10/2010

José Matias











(...) O narrador não entende aquele caso, e nós também não. Filósofo pretensioso, ele tenta explicar José Matias recorrendo ao utilitarismo de Bentham e ao animalismo de Darwin, mas nenhum tratado erudito explica a «espantosa tortuosidade espiritual» de José Matias, que teve tudo à sua mercê, após dez anos de espera, e de tudo abdicou. E que ainda assim continua amante e torturado, e agora extravagante e boémio, de tão desesperado. Passam sete anos, anos de dissipação e continuada devoção: «(…) arrancou o corpo pesado à poltrona de verga, e forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas, depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e escuro sossego da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à macia aragem. E essa claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecido numa contemplação. (...) Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinando, sem respirar, sorvia o encanto daquela visão benfazeja».(...)

[no Público de amanhã]