12/07/2010

O arco e a ferida

Pessoas supostamente próximas dizem que estou endurecido, insensível, selvagem. Serei tudo isso, tornei-me tudo isso, mas sugiro que leiam os clássicos. Leiam o Filoctetes de Sófocles.

Filoctetes detesta os homens e a sociedade. E porquê? Porque foi abandonado numa ilha deserta pelos seus companheiros, aqueles em quem mais confiava, deixado a agonizar com uma mordedura de víbora que tornou um dos seus pés numa chaga infecta.

Assim que Filoctetes foi ferido, aqueles em quem confiava não quiseram saber mais dele, não lhe suportavam a presença, a visão, o cheiro, não aguentavam os seus lamentos lancinantes. Ele já não era útil. Foram-se embora, ele que morresse sozinho.

Não morreu. Viveu dez anos naquela ilha, sem ninguém, e sem maneira de regressar a casa, horrorizado com a deslealdade e sofrendo dores atrozes. Tornou-se endurecido, insensível, selvagem. Um farrapo humano.

É por isso que Filoctetes não quer saber do convívio com gente impiedosa. É inflexível, nunca mais quer nada com eles, «nunca, nunca», diz, nem que os deuses intercedam. O trauma justifica a insolência.

Vêm então uns quantos ter com ele, cobiçando o seu arco infalivel, que lhes dá jeito numa guerra longínqua. Mas são os mesmos que o rejeitaram por causa da sua ferida. Quem não quis a ferida, não terá o arco.

Na peça de Sófocles, um «deus ex machina» faz com que Filoctetes mude de ideias; mas o «deus ex machina» já não se usa, «nunca» é «nunca», deixem os selvagens serem selvagens à sua vontade, antes um farrapo humano do que um herói desumano. Vem nos clássicos.